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Inocentes!

Em seu novo livro, Bento XVI exime o povo judeu de culpa pela morte de Jesus Cristo.

Dois mil anos de acusações, ódios e ressentimentos entre cristãos e judeus podem estar mais próximos do fim. Em Jesus de Nazaré – Semana Santa: Da entrada em Jerusalém à ressurreição, o papa Bento XVI fez o mais completo e fundamentado desagravo de um líder cristão aos judeus, eximindo-os de culpa pela morte de Jesus Cristo. O livro, com sólida pesquisa histórica e teológica, defende basicamente que os acontecimentos que precipitaram a execução de Jesus, por volta do ano 30 da Era Cristã, foram protagonizados pela elite política e religiosa judaica da época, e não pelo povo judeu. O livro, lançado em março – justamente no período que antecede as celebrações da Páscoa –, vendeu 50 mil cópias no primeiro dia e teve repercussão imediata nas esferas religiosa e política.

O conceito da culpa coletiva dos judeus pela morte do Salvador, estabelecido por Agostinho no século 5 e reforçado ao longo dos séculos (ver abaixo), é um fantasma que nem a modernidade foi capaz de exorcizar. Pano de fundo para legitimar diversos atos de intolerância e violência, inclusive as Cruzadas da Idade Média e o Holocausto nazista, a suposta aprovação sistemática dos judeus à crucificação é colocada em xeque pelos argumentos de Joseph Ratzinger – fato que ganha ainda mais relevância pelo fato de o papa ser alemão. 

“Quais foram exatamente os acusadores de Jesus?”, questiona o líder católico em sua obra, com tradução em sete idiomas, inclusive o português, para em seguida responder: “a aristocracia do Templo”, aí compreendidos os sacerdotes, como Caifás, os escribas e fariseus. Uma simples leitura dos evangelhos revela que esta elite política e religiosa, afinada com os dominadores romanos, foi responsável pelas acusações que levaram o governador da Judeia, Pôncio Pilatos, a determinar sua execução.

 

“ACUSAÇÃO INFUNDADA”

Lembrando que tanto Jesus, como os evangelistas e os primeiros cristãos eram judeus, Bento XVI denuncia que a ideia de que aquele povo era “assassino de Cristo” tem sido usado durante a História para legitimar todo tipo de perseguições.  “É um avanço importante”, celebrou o vice-presidente da Reunião Americana de Sobreviventes do Holocausto e seus Descendentes, Elan Steinberg. “Trata-se do repúdio pessoal do mais importante líder da cristandade ao fundamento teológico de séculos de antissemitismo”. O premiê israelense, Benyamin Netaniahu, enviou uma carta de congratulações ao Vaticano. No texto, o chefe do governo de Israel manifestou seu apreço à postura do papa contra “uma acusação infundada que tem baseado o ódio contra os judeus”.

O Concílio Vaticano II (1962-1965) já havia rejeitado a tese da culpa coletiva dos judeus. Contudo, o livro de Ratzinger é um vigoroso reforço na mesma direção, ainda mais levando-se em conta que o líder católico é um dos maiores teólogos cristãos vivos. Por isso mesmo, analistas consideraram que ele parece ter sido escrito mais para seminaristas e clérigos do que o público em geral, tamanha a erudição do texto. A obra também desconstrói a ideia de que Cristo tenha sido um líder político revolucionário. “Seu poder era o amor”, enfatiza o autor, dando uma estocada no pensamento que levou à formulação da teologia da libertação, corrente ideológica surgida nos anos 1960 com uma leitura marxista do Evangelho.

Bento XVI fala ainda sobre o fracasso da humanidade em tentar substituir a fé pela ciência e critica duramente a violência religiosa. Ratzinger, de 83 anos, começou a escrever o livro, o segundo da série Jesus de Nazaré, quando ainda era prefeito da Congregação Vaticana para a Doutrina da Fé, por indicação de seu antecessor, João Paulo II. Ele a descreve como um “percurso pessoal em busca da face do Senhor.”

 

 

Letras que matam

 

Ao longo da história do cristianismo, muito já se escreveu e publicou contra os judeus. Desde pais da Igreja, como Cipriano e Agostinho, a filósofos do século 19, religiosos e intelectuais têm defendido a intolerância em relação às populações judaicas:

 

200 – Tertuliano escreve o primeiro manifesto cristão contra os judeus

 

250 – Cipriano divulga escritos dando conta de que o diabo é o pai dos judeus

 

415 – Agostinho de Hipona decreta que os judeus carregarão eternamente a culpa pela morte de Jesus

 

1543 – Lutero, o pai da Reforma Protestante, lança Sobre os judeus e suas mentiras, em que estimula a destruição das sinagogas

 

1880 – O filósofo alemão Karl Eugen Dühring lança o livro A questão judaica, em que defende a inferioridade dos judeus em relação aos povos germânicos. Cinco décadas depois, suas ideias serviriam de base à política nazista de extermínio dos judeus

 

1903 – Publicados, em São Petersburgo (Rússia), os Protocolos dos sábios de Sião, obra que denuncia suposta conspiração judaica para dominar o mundo

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