Menu

Jogo duro

Papa anuncia punições mais severas a padres pedófilos e bispa luterana alemã renuncia, acusada de acobertar abusador.

Pode ser que não dê em nada. Mas o Vaticano, finalmente, adotou medidas mais duras para combater a mazela da pedofilia no sacerdócio. Após ser acusada pelo mundo de acobertar crimes sexuais praticados por clérigos durante décadas, a Igreja Católica anunciou, no dia 15 de julho, um pacote de mudanças em seus estatutos, com o objetivo de impedir ou ao menos inibir a prática de delitos dessa natureza. A partir de agora, por exemplo, o prazo prescricional avança de dez para 20 anos, contados a partir da data em que a vítima de eventual crime sexual praticado por um padre atinja a maioridade. As novas normas preveem ainda penas para uso ou divulgação de material pornográfico envolvendo menores e que leigos poderão ser designados para os Tribunais Eclesiásticos, numa tentativa de contornar o corporativismo de batina no julgamento dos casos.

O documento, intitulado Normas sobre crimes mais graves, foi apresentado à imprensa pelo porta-voz do Vaticano, monsenhor Federico Lombardi. As novas leis, elaboradas pela Congregação para a Doutrina da Fé, foram sancionadas pelo papa Bento XVI e tornam mais rigoroso estatuto anterior, promulgado por seu antecessor João Paulo II em 2001, após uma enxurrada de críticas à Igreja – não só pela ocorrência dos crimes, como pelo acobertamento com que normalmente os casos são tratados. O próprio chefe atual da Igreja Católica foi acusado de fazer vista grossa para atos de pedofilia praticados por seus subordinados, na época em que era bispo de Munique, na sua Alemanha natal. Ultimamente, o papa aceitou a demissão de vários bispos envolvidos em escândalos, quatro deles da República da Irlanda. Também encontrou-se com vítimas e seus familiares para um pedido oficial de perdão.

 

Leniência – As regras mais duras foram saudadas pelo monsenhor Charles Scicluna, que participou de sua elaboração. “Trata-se de sinal de que somos seriíssimos em nosso compromisso para promover ambientes saudáveis e oferecer uma resposta adequada aos abusos", declarou. "Se mais mudanças forem necessárias, serão feitas".O documento, no entanto, não estabelece a obrigação de que líderes de paróquias e dioceses denunciem os crimes de que tomem conhecimento à Justiça comum. Esta era precisamente uma das maiores exigências das associações de vítimas de pedofilia e seus advogados.

Mas não apenas a Igreja Católica está às voltas com criminosos sexuais em seu clero. A Igreja Luterana alemã foi surpreendida com o pedido de renúncia da arcebispa de Hamburgo, Maria Jepsen, primeira mulher alçada ao bispado da denominação em todo o mundo, em 1992. Há dez anos, religiosa, de 65 anos, sofria críticas pela lentidão com que tratava graves acusações contra um pastor de sua arquiciocese, que teria abusado de jovens de ambos os sexos. O pastor foi apenas transferido de paróquia, aposentando-se depois sem ser sequer investigado. “Minha credibilidade está colocada em dúvida. Assim, não tenho mais condições de propagar a Palavra de Deus”, disse Maria, em uma coletiva. A Alemanha enfrenta uma onda de revelações e acusações relacionadas com atos de pedofilia ou maus-tratos praticados por religiosos contra menores. Em abril, o governo da chanceler Angela Merckel instituiu uma comissão encarregada de apresentar propostas para combater atos dessa natureza em igreja e instituições eclesiásticas de ensino.

voltar ao topo