Cristianismo HojeConteúdo cristão para mudar pessoas que mudam o mundo.http://www.cristianismohoje.com.brpt-brO senhor família

Quando chegou ao Brasil, em 1967, como missonário, o pastor americano Jaime Kemp encontrou um país muito diferente do de hoje. Ele e a mulher, Judith, iniciaram então um ministério praticamente inédito por aqui – o discipulado de jovens. A fundação do grupo Vencedores por Cristo foi parte essencial desse processo. Através da música, os Vencedores, como eram conhecidos, conquistaram a simpatia e a admiração da Igreja Evangélica brasileira, com sua música despojada, letras contextualizadas e forte ênfase na evangelização e no preparo de liderança. Centenas de jovens passaram pelo ministério, a maioria dos quais continua, até hoje, servindo a Deus.

Paralelamente a isso, Jaime, que tinha doutorado em ministério com famílias pela Universidade Biola, na Califórnia (EUA), percebeu que esta era outra lacuna a ser preenchida por aqui. Hoje, passados 45 anos, Jaime Kemp é uma referência nacional no assunto. Liderando o ministério Lar Cristão – entidade sediada em São Paulo que realiza seminários, congressos, edita publicações e desenvolve uma série de outras atividades nesta área –, ele é um conselheiro muito requisitado. Autor de mais de 50 livros, vários deles em coautoria com Judith, o pastor influenciou duas gerações de crentes com seus escritos sobre, por exemplo, namoro, casamento e sexualidade, tudo sob a ótica bíblica. O tempo passou, a sociedade mudou e ele continua, à sua maneira, dizendo as mesmas coisas. “Até gosto de ser chamado de conservador”, diz, bem humorado,  “porque creio firmemente que o meu posicionamento teológico tem base segura na Palavra de Deus. As ondas filosóficas vão e vêm, mas a Bíblia permanece para sempre”. Nesta entrevista, ele fala sobre esses e diversos outros temas que, ontem como hoje, despertam polêmica. E sem receio de parecer retrógrado:

 

CRISTIANISMO HOJE – O senhor tem doutorado em ministério da família, disciplina organizada nos Estados Unidos, mas que ainda não tem muito espaço nas igrejas e seminários brasileiros. Por que o assunto não é tratado de maneira mais séria aqui?

JAIME KEMP – Ao longo dos anos, trabalhando com a família, tenho procurado desafiar as lideranças dos seminários brasileiros a incluir em sua grade curricular uma matéria visando à preparação de obreiros e conselheiros qualificados. Há uma enorme necessidade disso! Porém, conheço poucas pessoas que aceitaram o desafio. Há duas razões possíveis para isso – em primeiro lugar, os seminários nem sempre encontram professores habilitados para ensinar a disciplina; e, em segundo, parece que nem mesmo as escolas veem a necessidade de preparar pastores para trabalharem com a família. Então, eles se formam, entram nas igrejas e não têm a mínima ideia de como lidar com as exigências dos nossos casamentos complicados de hoje.

 

É por isso que, em uma Igreja tão grande como a brasileira, ministérios voltados à família evangélica, como Lar Cristão, ainda são poucos?

Realmente, as igrejas não estão preparadas para lidar com as famílias, e isso acontece porque os pastores não possuem essa visão ou não foram treinados – ou, falando francamente, não estão interessados. Graças a Deus, nos últimos dez anos, o Senhor tem nos abençoado e vemos surgir alguns ministérios eficazes voltados à família. Entretanto, considerando a imensa proporção de trabalho, ainda somos poucos a atuar nessa área. Também é preciso destacar a falta de treinamento de leigos em nossas igrejas, focando, especificamente, o investimento em famílias. É claro que existe, por trás de tudo isso, uma ferrenha batalha espiritual: Satanás está trabalhando incessantemente para destruir as famílias. Por isso, qualquer tentativa para salvá-las requer um grande esforço e muita persistência.

 

Mas essa dificuldade em se encontrar obreiros e ministérios não decorre, também, do esvaziamento da questão dos valores – inclusive, os familiares – diante da pós-modernidade?

Quando possível, ministérios como Lar Cristão devem se empenhar em defender os valores cristãos, oferecendo uma base bíblica para tudo o que ensinamos. Em relação a assuntos polêmicos da agenda de hoje – como aborto, casamento gay e até a maneira adequada de como disciplinar e treinar os filhos –, penso que devemos ser profetas, insistindo em transmitir as bases bíblicas, mas sempre de modo simpático, sem nos tornarmos agressivos ou chatos. Entre outras filosofias que bombardeiam a família cristã, ressalto o relativismo. Basicamente, ele prega que a Palavra de Deus não deve mais ser considerada como verdade. Cada um pode formar sua própria opinião, e cada opinião é tida como válida. Estamos mergulhados num mar de subjetividade e, definitivamente, retiramos nossa âncora da Palavra de Deus. Mas eu mesmo já fui considerado um discriminador por causa da minha perseverança na defesa da posição bíblica. Creio que os líderes precisam estar preparados para serem perseguidos, ridicularizados e mal-interpretados. Contudo, não precisamos nos preocupar em defender a Palavra de Deus. Sempre que a transmitimos fielmente, é como se soltássemos um leão forte e poderoso. Seu poder jamais passa despercebido. Deus promete que a sua Palavra não voltará vazia!

 

Para muitas pessoas, o senhor é um conservador, inclusive por causa do conteúdo de muitos de seus livros, editados há vinte, trinta anos. Como o senhor mesmo se posiciona neste aspecto, sobretudo em relação ao que já escreveu?

Eu até fico contente pelo fato de que as pessoas me consideram conservador, porque creio firmemente que o meu posicionamento teológico tem base segura na Palavra de Deus. As ondas filosóficas vão e vêm, mas a Palavra de Deus permanece para sempre. Por isso, continuo acreditando que há sérias consequências, por exemplo, para um casal que se envolve em relações sexuais pré-nupciais. A Bíblia é muito clara sobre isso. Acredito que a moralidade cristã ainda tem espaço, mesmo na sociedade do século 21.

 

Então, o senhor continua falando as mesmas coisas?

Cada pessoa tem uma opinião sobre o assunto, mas o que vale é o que Deus pensa. O que ensinei nos anos 1970, continuo ensinando hoje – princípios sobre relações pré-nupciais, relações sexuais fora do casamento, tudo isso, e ainda mais, tem sido ensinado através dos anos. Eu insisto em transmitir aos jovens brasileiros as consequências do sexo pré-nupcial e como é possível viver na pureza. No meu seminário sobre namoro, gasto quase um terço do tempo falando sobre como evitar defraudar o namorado ou namorada, e como cada um deve se guardar para seu futuro cônjuge. O resultado é que centenas de casais têm me comunicado, no decorrer de todos esses anos, a bênção que representou ter recebido uma base bíblica de maneira clara, prática e franca.

 

Qual é a base bíblica para se defender, especificamente, a castidade pré-conjugal?

Sexo antes do casamento ainda é um tabu evangélico, se basearmos nosso comportamento segundo a Palavra de Deus. O Senhor proíbe relações sexuais fora do compromisso matrimonial. O pecado inserido no sexo antes do casamento é a desobediência à Palavra de Deus. Em Gênesis 2.24,25, Deus estabeleceu os fundamentos do casamento: 1) Os filhos deixam os pais; 2) Eles se comprometem mutuamente, e 3) Há intimidade sexual. Muitos jovens invertem a ordem de Deus. Em I Tessalonicenses 4.6, Paulo exorta os cristãos a se absterem da prostituição. A prostituição, do grego porneia, define qualquer uso da sexualidade fora dos laços matrimoniais.

 

Pesquisa recente realizada por CRISTIANISMO HOJE e pelo Bureau de Pesquisa e Estatística Cristã (Bepec) encontrou 47% de respondentes, entre jovens evangélicos, que disseram “sim” à pergunta sobre prática de sexo pré-conjugal. Qual sua análise sobre este número?

Minha própria pesquisa sobre o assunto entre os jovens evangélicos constatou que 52% tiveram pelo menos uma relação sexual antes do casamento, e muitos outros ainda continuam ativos sexualmente, mesmo solteiros. Isso é uma das razões da queda do casamento nos primeiros anos. Estamos vendo agora casamentos que duram apenas dois anos por causa do sentimento de culpa e da desobediência à Palavra de Deus. Minha análise é de que nossos pastores estão sendo intimidados pela juventude. Eles têm medo, assim como os pais, de falar palavras duras acerca das consequências espirituais dessa liberalidade, isso sem mencionar outros problemas, como gravidez precoce, doenças sexualmente transmissíveis e o sentimento de culpa por ter transado com uma pessoa e não ter casado com ela.

 

Responda a uma pergunta que volta e meia provoca controvérsia entre os crentes: existe, de fato, uma pessoa escolhida por Deus para se casar com outra ou essa escolha é individual?

Bem, é claro que o soberano Deus sabe tudo o que vai acontecer em nossas vidas, incluindo quem será o nosso futuro cônjuge. Porém, acredito profundamente que ele dá o privilégio a cada pessoa de escolher com quem quer se casar. O Senhor estabeleceu, em sua Palavra, princípios básicos que nos auxiliam a tomar decisões sábias nessa área, como a admoestação de Paulo acerca de se evitar o jugo desigual com os incrédulos. Quando procuramos saber os princípios básicos que a Bíblia apresenta sobre a escolha do nosso cônjuge e decidimos baseados nesses princípios, Deus abençoa o futuro relacionamento.

 

Na sua opinião, a Igreja tem oferecido respostas adequadas às novas realidades sociais e comportamentais?

Em primeiro lugar, a Igreja brasileira está muitos passos atrasada na comunicação de atitudes bíblicas com relação a qualquer realidade social. Em termos gerais, o cristão sentado no banco da igreja não tem uma ideia determinada sobre qual atitude deve tomar diante do movimento gay, por exemplo. A esse respeito, temos que responsabilizar os próprios pastores, que muitas vezes também não sabem o que fazer. Mas precisamos estar preparados para sermos acusados de discriminadores, radicais, preconceituosos, atrasados e intolerantes – e até preparados para enfrentar perseguições pela nossa fidelidade no ensino da Palavra.

 

E o senhor acha que os pastores estão preparados para isso?

Acredito que os pastores têm medo de abordar determinadas questões claramente por medo de serem perseguidos. Por exemplo, em 45 anos que estou no Brasil, nunca assisti a uma palestra de um pastor brasileiro sobre a questão do aborto. Estamos presenciando a morte de milhões de crianças nos ventres das mulheres brasileiras anualmente, e, pelo tamanho do problema, acredito que o pastor deveria estar orientando o seu povo. Em meu seminário, quando falo do aborto, percebo que o povo não tem uma ideia do que é. Eles sabem o que é o aborto, mas não sabem como desenvolver o assunto. Então, no meu entender, o problema está no medo ou na incapacidade de se tratar certos assuntos que não arrancam “aleluias” das pessoas.

 

Com relação especificamente à homossexualidade, como as igrejas devem tratar os gays?

Devemos ensinar a nosso povo que Deus ama as pessoas homossexuais. Cristo morreu na cruz por todos. Por outro lado, não podemos deixar de também ensinar o que a Bíblia afirma sobre o comportamento homossexual. Aceitar e amar o homossexual não quer dizer que devemos aceitar o seu comportamento ou considerá-lo natural. Ninguém nasce homossexual. Não há nenhuma evidência física, médica ou psicológica que sustente semelhante teoria. Isso é uma estratégia do movimento gay para, de alguma forma, justificar o seu comportamento. O movimento homossexual está prejudicando amplamente a sociedade moderna, através sua pretensão de redefinir a família.  Segundo o planejamento de Deus, e por milhares de anos, a família tem sido constituída por marido e pai, esposa e mãe e filhos. De repente, nos últimos trinta, quarenta anos, o homem, em sua imaginária autossuficiência, quer forçar à sociedade uma nova opção. Deus, em sua Palavra, já definiu eternamente o que é uma família.

 

Mas a definição do que é casamento tem mudado muito. Hoje, o Direito de Família já equipara a união estável ao casamento formal. Sendo assim, ainda cabe exigir dos crentes que formalizem suas uniões conjugais?

E será que devemos seguir o caminho do governo brasileiro? O governo brasileiro aceita um casal amasiado ou amigado por algum tempo, mas nós não devemos aceitar. Nosso cristianismo tem raízes no judaísmo, que registrava os casamentos em um documento, um papel, uma licença. Encontramos esse documento em Deuteronômio 24.1-4. Em meus seminários, eu digo o seguinte às pessoas que vivem maritalmente: vamos regularizar essa situação, fazendo o casamento em cartório. Devemos ser bíblicos – e, biblicamente falando, duas pessoas que moram juntas sem serem casadas estão vivendo em adultério. Isso abre precedente para que os filhos desses casais venham a fazer o mesmo. Nós não deixamos um casal amasiado ser membro de nossa igreja justamente porque, para nós, eles estão no estado de adultério.

 

Quando o senhor chegou ao Brasil, nem havia ainda a chamada lei do divórcio, instituída em 1977. Hoje, a dissolução do casamento é vista com naturalidade, inclusive entre os evangélicos. Na sua opinião, há situações em que a Igreja deveria considerar o divórcio inaceitável?

Eu costumo dizer em meus seminários que, hoje em dia, é mais fácil finalizar um processo de divórcio do que desligar a água ou a luz de sua casa junto à empresa responsável. Esta é uma das razões porque o número de divórcios aumenta nas igrejas a cada dia. Um dos motivos desse fenômeno é que está desaparecendo o estigma que existia a respeito. O rebanho não conhece o ensino da Palavra de Deus sobre o divórcio e novo casamento. Todavia, baseado em fundamentos bíblicos, há duas concessões para o divórcio: a primeira é relativa à infidelidade, conforme Mateus 19.9; a segunda diz respeito ao abandono, por parte do incrédulo, de acordo com I Coríntios 7.12 a 15. Nesses casos, a parte inocente, digamos assim, teria a possibilidade de um novo casamento. Agora, o cônjuge que traiu ou abandonou, se casar de novo, estará cometendo adultério, como disse Jesus. Deixe-me fazer uma outra observação: se tudo isso – separação, divórcio, abandono, infidelidade – ocorreu antes da conversão da pessoa, então, creio que não conta, ou seja, todas as coisas são novas através da conversão. Sei que há divergências sobre isso e eu respeito a opinião dos que não acreditam assim. Em meu livro Antes de dizer adeus, dedico um capítulo inteiro para tratar dessa posição bíblica que estamos falando aqui.

 

E quanto ao divórcio entre a liderança, qual deveria ser a posição das igrejas?

Não sou profeta, nem filho de profeta, mas eu, anos atrás, profetizei que nós iríamos entrar em uma onda de divórcios nos púlpitos da nossa terra. E isso está acontecendo hoje. Então, cada igreja tem que estabelecer o que vai acontecer se seu pastor adulterar, largar sua esposa. Na minha opinião, não poderia continuar. Em I Timóteo 3, Paulo fala sobre as qualificações de um líder, e uma delas é de ele ser irrepreensível. Então, um pastor que largou sua mulher não é irrepreensível. As pessoas na igreja vão ver esse homem e lembrar que ele largou a mulher – então, não tem jeito de continuar como pastor. Há igrejas que estão aceitando pastores mesmo depois do divórcio. Mas não é correto.

 

Dois dos aspectos mais polêmicos da Bíblia em relação à família dizem respeito à submissão da mulher ao marido e ao rigor na criação dos filhos – e ambos são muito contestados hoje em dia, mesmo dentro das igrejas. Ensinamentos tão antigos ainda têm validade plena hoje?

A Palavra de Deus se aplica a qualquer cultura, raça ou época. O método pode ser diferenciado de cultura para cultura; porém, o conceito deve manter-se inalterado. Submissão transmite a ideia de respeito, que é exatamente a maior necessidade de qualquer marido. No passado, aconteceu um desequilíbrio no ensino dos papéis do marido e da mulher no casamento. A interpretação equivocada do conceito provocou a exacerbação do machismo e uma visão exagerada quanto à submissão da mulher. A meu ver, e é o que ensino, quando um homem ama sua esposa como ela deve ser amada, torna-se mais fácil para ela submeter-se à liderança do marido. Já quanto aos filhos, bem, a Bíblia fala no castigo, mas acho que é mais importante enfatizar a disciplina, que tem o propósito de desenvolver o caráter e corrigir a criança. Essa disciplina deve ser aplicada com temperança, e nunca em um momento de raiva por parte dos pais. Sim, acredito na disciplina com vara, que é um ensino bíblico, mas jamais aceitarei o espancamento, o abuso e outras formas impróprias de exercer a autoridade que, no final, só subjugam, revoltam e aniquilam a alma da criança. É o amor que deve conduzir e envolver a vara da disciplina

 

O senhor veio para o Brasil há 45 anos, época em que o país e a Igreja Evangélica eram muito diferentes do que são nos dias de hoje. Encontrou muitas dificuldades de adaptação?

Foi fácil para Judith e eu nos adaptarmos aos costumes do Brasil e da Igreja brasileira. O povo brasileiro sempre foi e continua sendo simpático e acolhedor. E tem sido um enorme prazer servirmos ao Senhor neste país! Na época, os jovens foram nossos “professores”, pois nos ajudaram a adaptar o que tínhamos a transmitir de uma forma que não ferisse os costumes do povo brasileiro. Quero confessar que estou mais adaptado à cultura brasileira do que à americana... Um dos motivos é porque moro no Brasil há tantos anos. E quero registrar aqui que sou palmeirense, gosto de churrasco e de um café bem forte!

 

O senhor ainda pretende trabalhar muitos anos no Brasil?

Eu pretendo encerrar meu ministério, se Deus permitir, ao completar 50 anos no Brasil. Mas, até lá, tenho mais alguns livros para escrever. Um deles é justamente sobre a pós-modernidade e a Igreja desse tempo. Nós estamos vivendo uma época exclusiva, diferente, em que filosofias como o humanismo, o secularismo, o hedonismo, o materialismo e o relativismo estão batendo diretamente na igreja e na família. Vou falar sobre a sobrevivência da família brasileira diante de tantas dificuldades. Além disso, ainda tenho seminários para ministrar e pessoas para evangelizar e discipular por aqui, para a glória de Deus! 

 

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Thu, 03 May 2012 13:40:22 +0000 Thu, 03 May 2012 13:40:22 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=855
Pastores feridos

Desânimo, solidão, insegurança, medo e dúvida. Uma estranha combinação de sensações passou a atormentar José Nilton Lima Fernandes, hoje com 41 anos, a certa altura da vida. Pastor evangélico, ele chegou ao púlpito depois de uma longa vivência religiosa, que se confunde com a de sua trajetória. Criado numa igreja pentecostal, Nilton exerceu a liderança da mocidade já aos 16 anos, e logo sentiria o chamado – expressão que, no jargão evangélico, designa aquele momento em que o indivíduo percebe-se vocacionado por Deus para o ministério da Palavra. Mas foi numa denominação do ramo protestante histórico, a Igreja Presbiteriana Independente (IPI), na cidade de São Paulo, que ele se estabeleceu como pastor. Graduado em Direito, Teologia e Filosofia, tinha tudo para ser um excelente ministro do Evangelho, aliando a erudição ao conhecimento das Sagradas Escrituras. Contudo, ele chegou diante de uma encruzilhada. Passou a duvidar se valeria mesmo a pena ser um pastor evangélico. Afinal, a vida não seria melhor sem o tal “chamado pastoral”?

As razões para sua inquietação eram enormes. Ordenado pastor desde 1995, foi justamente na igreja que experimentou seus piores dissabores. Conheceu a intriga, lutou contra conchavos, desgastou-se para desmantelar o que chama de “estrutura de corrupção” dentro de uma das igrejas que pastoreou. Mas, no fim de tudo isso, percebeu que a luta fora inglória. José Nilton se enfraqueceu emocionalmente e viu o casamento ir por água abaixo.  Mesmo vencendo o braço-de-ferro para sanar a administração de sua igreja, perdeu o controle da vida. A mulher não foi capaz de suportar o que o ministério pastoral fez com ele. “Eu entrei num processo de morte. Adoeci e tive que procurar ajuda médica para me restabelecer”, conta. Com o fim do casamento, perdeu também a companhia permanente da filha pequena, uma das maiores dores de sua vida.

Foi preciso parar.  No fim de 2010, José Nilton protocolou uma carta à direção de sua igreja requisitando a “disponibilidade ativa”, uma licença concedida aos pastores da denominação. Passou todo o ano de 2011 longe das funções ministeriais. No período, foi exercer outras funções, como advogado e professor de escola pública e de seminário.  “Acho possível servir a Jesus, independentemente de ser pastor ou não”, raciocina, analisando a vida em perspectiva. “Não acredito mais que um ministério pastoral só possa ser exercido dentro da igreja, que o chamado se aplica apenas dentro do templo. Quebrei essa visão clerical”. Reconstruindo-se das cicatrizes, Nilton casou-se novamente. E, este ano retornou ao púlpito, assumindo o pastoreio de uma igreja na zona leste de São Paulo. Todavia, não descarta outro freio de arrumação. “Acho que a vida útil de um líder é de três anos”, raciocina. “É o período em que ele mantém toda a força e disposição. Depois, é bom que esse processo seja renovado”. É assim que ele pretende caminhar daqui para frente: sem fazer do pastorado o centro ou a razão da sua vida.

Encontrar o equilíbrio no ministério não é tarefa fácil. Que o digam os ex-pastores ou pastores afastados do púlpito que passam a exercer outras atividades ou profissões depois de um período servindo à igreja. Uma das maiores denominações pentecostais do país, a Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ), com seus 30 mil pastores filiados – entre homens e mulheres –, registra uma deserção de cerca de 70 pastores por mês desde o ano passado. Os números estão nas circulares da própria igreja. Não é gente que abandona a fé em Cristo, naturalmente; em sua maioria, os religiosos que pedem licença ou desligamento das atividades pastorais continuam vivendo sua vida cristã, como fez José Nilton no período em que esteve afastado do púlpito. É que as pressões espirituais e as demandas familiares e pessoais dos pastores, nem sempre supridas, constituem uma carga difícil de suportar ao longo doa anos. Some-se a isso os problemas enfrentados na própria igreja, as cobranças da liderança, a necessidade de administrar a obra sob o ponto de vista financeiro e – não raro – as disputas por poder e se terá uma ideia do conjunto de fatores que podem levar mesmo aquele abençoado homem de Deus a chutar tudo para o alto.

A própria IPI, onde José Nilton militou, embora muito menor que a Quadrangular – conta com cerca de 500 igrejas no país e 690 pastores registrados –, teria hoje algo em torno de 50 ministros licenciados, número registrado em relatório de 2009. Pode parecer pouco, mas representa quase dez por cento do corpo de pastores ativos. Caso se projete esse percentual à dimensão da já gigantesca Igreja Evangélica brasileira, com seus aproximadamente 40 milhões de fiéis, dá para estimar que a defecção dos púlpitos é mesmo numerosa. De acordo com números da Fundação Getúlio Vargas, o número de pastores evangélicos no país é cinco vezes maior do que a de padres católicos, que em 2006 era de 18,6 mil segundo o levantamento Centro de Estatísticas Religiosas e Investigações Sociais. Porém, devido à informalidade da atividade pastoral no país, é certo que os números sejam bem maiores.

 

FERIDOS QUE FEREM

O chamado pastoral sempre foi o mais valorizado no segmento evangélico. Por essa razão, é de se estranhar quando alguém que se diz escolhido por Deus para apascentar suas ovelhas resolva abandonar esse caminho. Nos Estados Unidos, algumas pesquisas tentam explicar os principais motivos que levam os pastores a deixar de lado a tarefa que um dia abraçaram. Uma delas foi realizada pelo ministério LifeWay, que, por telefone, contatou mil pastores que exerciam liderança em suas comunidades eclesiásticas. E o resultado foi que, apesar de se sentirem privilegiados pelo cargo que ocupavam (item expresso por 98% dos entrevistados), mais da metade, ou 55%, afirmaram que se sentiam solitários em seus ministérios e concordavam com a afirmação “acho que é fácil ficar desanimado”. Curiosamente, foram os veteranos, com mais 65 anos, os menos desanimados. Já os dirigentes das megaigrejas foram os que mais reclamaram de problemas. De acordo com o presidente da área de pesquisas da Life Way, Ed Stetzer – que já pastoreou diversas igrejas –, a principal razão para o desânimo pode vir de expectativas irreais. “Líderes influenciados por uma mentalidade consumista cristã ferem todos os envolvidos”, aponta. “Precisamos muito menos de clientes e muito mais de cooperadores”, diz, em seu blog pessoal.

Outras pesquisas nos EUA vão além. O Instituto Francis Schaeffer, por exemplo, revelou que, no último ano, cerca de 1,5 mil pastores têm abandonado seus ministérios todos os meses por conta de desvios morais, esgotamento espiritual ou algum tipo de desavença na igreja. Numa pesquisa da entidade, 57% dos pastores ouvidos admitiram que deixariam suas igrejas locais, mesmo se fosse para um trabalho secular, caso tivessem oportunidade. E cerca de 70% afirmam sofrer depressão e admitem só ler a Bíblia quando preparam suas pregações. Do lado de cá do Equador, o nível de desistência também é elevado, ainda mais levando-se em conta as grandes expectativas apresentadas no início da caminhada pastoral pelos calouros dos seminários. “No começo do curso, percebemos que uma boa parte dos alunos possui um positivo encantamento pelo ministério. Mais adiante, já demonstram preocupação com alguns dilemas”, observa o diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo, o pastor batista Lourenço Stélio Rega. Ele estima que 40% dos alunos que iniciam a faculdade de teologia desistem no meio do caminho. Os que chegam à ordenação, contudo, percebem que a luta será uma constante ao longo da vida ministerial – como, aliás, a própria Bíblia antecipa.

E, se é bom que o ministro seja alguém equilibrado, que viva no Espírito e não na carne, que governa bem a própria casa, seja marido de uma só mulher (ou vice-versa, já que, nos tempos do apóstolo Paulo não se praticava a ordenação feminina) e tantos outros requisitos, forçoso é reconhecer que muita gente fica pelo caminho pelos próprios erros. “O ministério é algo muito sério” lembra Gedimar de Araújo, pastor da Igreja Evangélica Ágape em Santo Antonio (ES) e líder nacional do Ministério de Apoio aos Pastores e Igrejas, o Mapi. “Se um médico, um advogado ou um contador erram, esse erro tem apenas implicação terrena. Mas, quando um ministro do Evangelho erra, isso pode ter implicações eternas.”

Desde que foi criado, há 20 anos, em Belo Horizonte (MG), como um braço do ministério Servindo Pastores e Líderes (Sepal), o Mapi já atendeu milhares de pastores pelo país. Dessa experiência, Gedimar traça quatro principais razões que podem ser cruciais para a desmotivação e o abandono do ministério. “Ativismo exagerado, que não deixa tempo para a família ou o descanso; vida moral vacilante, que abre espaço para a tentação na área sexual; feridas emocionais e conflitos não resolvidos; e desgaste com a liderança, enfrentando líderes autoritários e que não cooperam”, enumera. Para ele, é preciso que tanto os membros das igrejas quanto as lideranças denominacionais tenham um cuidado especial com os pastores. “Muitos sofrem feridas, como também, muitas vezes, chegam para o ministério já machucados. E, infelizmente, pastor ferido acaba ferindo”.

Quanto à responsabilidade do próprio pastor com o zelo ministerial, Gedimar é taxativo: “É melhor declinar do ministério do que fazê-lo de qualquer jeito ou por simples necessidade”. A rede de apoio oferecida pelo Mapi supre uma lacuna fundamental até mesmo entre os pastores – a do pastoreio. “É preciso criar em torno do ministro algumas estruturas protetoras. É muito bom que o líder conte com um grupo de outros pastores onde possa se abrir e compartilhar suas lutas; um mentor que possa ajudá-lo a crescer e acompanhamento para seu casamento e família e, por fim, ter companheiros com quem possa desenvolver amizades e relacionamentos saudáveis e sólidos”, enumera.

 

EXPECTATIVAS

Juracy Carlos Bahia, pastor e diretor-executivo da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil (OPBB), sediada no Rio de Janeiro, conhece bem o dilema dos colegas que, a certa altura do ministério, sentem-se questionados não só pelos outros, mas, sobretudo, por si mesmos. Ele lida com isso na prática e sabe que o preço acaba sendo caro demais. “Toda atividade que envolve vocação, como a do professor, a do médico ou a do pastor, é vista com muita expectativa. Quando se abandona esse caminho, é natural um sentimento de inadequação”. Para Bahia, o desencantamento com o ministério pastoral é fruto também do que entende como frustrações no contexto eclesiástico. Há pastores, por exemplo, que julgam não ter todo seu potencial intelectual utilizado pela comunidade. “Às vezes, o ministro acha que a igreja que pastoreia é pequena demais para seus projetos pessoais”, opina. Isso, acredita Bahia, estimula muitos a acumularem diversas funções, além das pastorais. “Eu defendo que os pastores atuem integralmente em seus ministérios. Porém, o que temos visto são pastores-advogados, pastores-professores, enfim, pastores que exercem outras profissões paralelas ao púlpito”, observa.

No entender do dirigente da OPBB, esse acúmulo de funções mina a energia e o potencial do obreiro para o serviço de Deus. A associação reúne aproximadamente dez mil pastores batistas e Bahia observa isso no seio da própria entidade: “Creio que metade deles sofra com a fuga das atividades pastorais para as seculares”. Contudo, ele acredita que deixar o ministério não é algo necessariamente negativo. “A pessoa pode ter se sentido vocacionada e, mais adiante na vida, por meio da experiência, das orações e interação com outros pastores, é perfeitamente possível chegar à conclusão que a interpretação que fez sobre seu chamado não foi adequada e sim emotiva”.

Quando, já na meia idade, casado e com dois filhos, ingressou no Seminário Presbiteriano do Norte (SPN), na capital pernambucana, Recife, Francisco das Chagas dos Santos parecia um menino de tanto entusiasmo. Nem mesmo as críticas de parentes para que buscasse uma colocação social que lhe desse mais status e dinheiro o desmotivou. “A igreja, para mim, é a melhor das oportunidades de buscar e conhecer meu Criador para que, pela graça, eu continue com firmeza a abrir espaço em meu coração para que ele cumpra sua vontade em mim, inclusive no ministério pastoral”, anotou em sua redação para o ingresso no SPN, em 1998. Ele formou-se no curso, foi ordenado pastor em 2003 e dirigiu igrejas nas cidades de Garanhuns e Saloá.

Hoje, aos 54 anos, Francisco trabalha como servidor público no Instituto Agronômico de Pernambuco. Ainda não curou todas as feridas e ressentimentos desde que, em 2010, entregou seu pedido de desligamento da denominação. Ele lamenta o tratamento recebido pelos seus superiores enquanto foi pastor. “Minha opinião sobre igreja não mudou. Nunca planejei um dia pedir licença ou despojamento do ministério. Mas entendo que somos o Corpo de Cristo, e, se uma unha dói, todos nós estamos doentes”, pondera. “Não é possível ser pastor sem pensar em restaurar vidas – e existem muitas vidas precisando de conserto, inclusive entre nós, pastores”.

A vida longe dos púlpitos ainda não foi totalmente sublimada e Francisco sabe bem que será constantemente indagado sobre sua decisão de deixar o ministério. “A impressão é que você deixou um desfalque, que adulterou ou algo parecido”, observa. Ele não considera voltar a pastorear pela denominação na qual se formou, porém não consegue deixar de imaginar-se como pastor. “Uma vez pastor, pastor para sempre”, recita, “muito embora as pessoas, em geral, acreditem que seja necessário um púlpito.”

 

 

Porta de saída

 

Pesquisa realizada nos Estados Unidos traçou um panorama dos problemas da atividade pastoral...

 

70% dos pastores admitem sofrer de depressão e estresse

80% deles sentem-se despreparados para o ministério

70% afirmam só ler a Bíblia quando precisam preparar seus sermões

40% já tiveram casos extraconjugais

30% reconhecem ter reduzido as próprias contribuições às igrejas após a crise financeira

 

... e avaliou as consequências disso:

 

1,5 mil pastores deixam o púlpito todos os meses

5 mil religiosos buscavam emprego secular no ano de 2009, mais do que o dobro do que ocorria em 2005

2 a 3 anos de ministério é o tempo médio em que os pastores deixam suas igrejas, sendo em direção a outras denominações ou não

 

Fontes: Barna Group, Christian Post, The Wall Street Journal, Instituto Francis A. Schaeffer e Instituto Jetro

 

 

Rebanho às avessas

 

A maioria dos pastores que se afastam de suas atividades ministeriais não abandona a fé em Cristo. Cada um deles, a seu modo, mantém sua vida espiritual e o relacionamento pessoal com Deus. Mas há quem saia do púlpito pela porta dos fundos, renegando as crenças defendidas com ardor durante tantos anos de atividade sacerdotal. Para estes – e, é bom que se diga, trata-se de uma opção nada recomendável –, existe a Freedom from Religion Foundation (“Fundação para o fim da religião”), entidade criada por ninguém menos que o mais famoso apologista do ateísmo da atualidade, o escritor britânico Richard Dawkins, autor do best-seller Deus, um delírio. Ele e um grupo de céticos lançaram o Projeto Clero, iniciativa que visa a apoiar ex-clérigos – pastores, padres, rabinos – no reinício da vida longe das funções religiosas. “Sacerdotes que perdem sua fé sofrem uma penalização dupla. Eles perdem seu emprego e, ao mesmo tempo, sua família e a vida que sempre tiveram”, argumenta Dawkins, no site do projeto. Não se tem notícia confiável de quantos ex-líderes aderiram ao Projeto Clero, mas parece óbvio que a ideia do refúgio ateu não é apenas abraçar sacerdotes cansados da vida religiosa, mas também engrossar o rebanho crescente daqueles que repudiam a possibilidade da existência de Deus.

 

 

Mudança difícil

 

Não foi uma escolha fácil. Quando o ex-pastor batista Osmar Guerra decidiu que seu lugar não era mais o púlpito, logo foi fustigado por olhares de decepção das pessoas que estavam ao seu redor e acreditavam em seu trabalho espiritual. Afinal, desde menino ele era o “pastorzinho” de sua igreja em Piracicaba, no interior paulista. Desinibido e articulado, o garoto, bem ensinado pelos pais na fé cristã, apresentava uma natural vocação para o pastorado. Por isso, foi natural sua decisão de matricular-se Faculdade Teológica Batista de São Paulo e, após os anos de estudo, assumir a função de pastor de adolescentes da Igreja Batista da Água Branca (IBAB), na capital paulista.

Começava ali uma promissora carreira ministerial. Osmar dividia seu trabalho entre as funções na igreja e as aulas de educação cristã, lecionadas no tradicional Colégio Batista. Tempos depois, o pastor transferiu-se para outra grande e prestigiada congregação, a Igreja Batista do Morumbi. Mas algo estava fora de sintonia, e Osmar sabia disso. Toda sua desenvoltura na oratória, sua capacidade de mobilização e seu espírito de liderança poderiam não ser, necessariamente, características de uma vocação pastoral. E, como dizem os jovens que ele tanto pastoreou, pintou uma dúvida: seu lugar era mesmo diante do rebanho?  “Eu era um excelente animador. Mas me faltava vocação, e fui percebendo isso cada vez mais”.

O novo caminho, ele sabia, não seria compreendido com facilidade pela família, pelos amigos e pelas ovelhas. Mas ele decidiu voltar a estudar, e escolheu a área de rádio e TV. E, mesmo ali, não escapou do apelido de “pastor”, aplicado pela turma. Quando conseguiu um estágio na TV Record, percebeu que ficava totalmente à vontade entre os cenários, as produções e os auditórios. Com seu talento natural, Osmar deslanchou, e o artista acabou suplantando o pastor. Depois de pedir demissão da igreja, em 2005, ele galgou posições na emissora e hoje é o produtor de um dos programas de maior sucesso da casa, O melhor do Brasil, apresentado pelo Rodrigo Faro.

“Durante muito tempo, fiquei em crise”, reconhece hoje, aos 31 anos. “Tive medo de tomar a decisão de deixar de ser pastor. Mas, hoje, sinto-me mais confiante e honesto comigo mesmo e perante os outros”, garante. Longe do púlpito, mas não de Jesus, Osmar Guerra continua participativo na sua igreja, a IBAB, onde toca e canta no louvor. De sua experiência, ele se acha no direito de aconselhar os mais jovens. “Defendo que, antes do seminário, as pessoas busquem formação em outras áreas, ainda mais quando são novas”, diz. Isso, segundo ele, pode abrir novas possibilidades se o indivíduo, por um motivo qualquer, sentir-se desconfortável no púlpito. Contudo, ele não descarta o valor de um chamado genuíno: “Se, mesmo assim, a vontade de se tornar um pastor continuar, isso é sinal de que o caminho pode ser esse mesmo.”

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Thu, 03 May 2012 12:08:34 +0000 Thu, 03 May 2012 12:08:34 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=854
Ministério ou emprego?

Um verdadeiro ninho de vespas acaba de ser aberto pelo Poder Judiciário. Em decisão inédita, a Sétima Turma do Tribunal Superior do Trabalho (TST) acolheu, em fevereiro, a sentença de primeira instância da 65ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, que reconheceu o vínculo empregatício do ex-pastor Carlos Henrique de Araújo com a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). A igreja recorreu, mas não houve jeito – a condenação foi mantida, e a Universal terá de pagar ao dissidente uma indenização de R$19 mil. A soma inclui não só os direitos trabalhistas retroativos e multas, mas também indenização por dano moral, já que a Universal acusou Araújo de roubo, sem provas.

Na ação, o ex-pastor narrou tem sido admitido na Iurd em 1999, como administrador, com salário de R$ 2,4 mil. Entre várias outras atividades, ele dirigia cultos, trabalhando de segunda-feira a domingo, em média, de 6h30 às 21h. Além disso, segundo seu depoimento, ainda tinha de bater metas de arrecadação em dízimos e ofertas e seguia rígida subordinação aos superiores. Anos depois, diante do fracasso em atingir as expectativas de arrecadação, o ex-pastor teve o salário reduzido à metade. Rebaixado à função de servente, foi transferido de congregação e ainda acusado de apropriar-se de parte de uma doação de R$ 23 mil.

Processos dessa natureza se avolumam nas Varas do Trabalho Brasil afora. No entanto, tais pleitos têm sido julgados improcedentes reiteradas vezes, com base, principalmente, nas leis 9.608/98 (que regulamenta o serviço voluntário) e 8.212/91, a qual não considera como remuneração o que é pago por entidades religiosas a seus líderes espirituais para fins de subsistência. Contudo, é a primeira vez que um caso obtém sucesso na segunda instância, o que o torna extremamente importante do ponto de vista da jurisprudência – o entendimento judicial que costuma prevalecer em ações da mesma natureza. Não cabe mais recurso.

 

“NEGÓCIO”

O caso reacende uma questão que tem ganhado força nos últimos anos, sobretudo diante de denominações que baseiam sua mensagem e atuação na arrecadação de dinheiro. “Se é negócio, não se trata de ministério sacerdotal”, frisa o desembargador federal do Trabalho Marcelo Augusto Oliveira, do Rio. Ele diz que, nesse tipo de contexto eclesiástico, o pastor adquire, mesmo, funções de empregado – descaracterizando, portanto, a tese da adesão voluntária por motivo de fé, até agora predominante na Justiça brasileira. No caso de Araújo, as provas apresentadas confirmaram a exigência do cumprimento de metas financeiras, o que, segundo o magistrado, distingue a função por ele exercida do ministério religioso – “Além disso, ele era tratado como funcionário, sem autonomia, sujeito a horário de trabalho e a punições.”

“Se a igreja se comporta como uma empresa, com metas e tudo o mais, deve ser encarada como tal e, por isso, torna-se passível de ações trabalhistas”, concorda o advogado Gilberto Ribeiro dos Santos, vice-presidente do Instituto de Juristas Cristãos do Brasil. Especialista na orientação jurídica a igrejas, ele alerta que a decisão do TST pode mudar muita coisa: “Todos os processos que tiverem o mesmo conjunto de fatos irão acompanhar essa decisão.”

O pastor batista Edmar Xavier não se sente um mero funcionário de sua congregação. “Apesar de receber todos os benefícios de um trabalhador normal, isso é uma generosidade, e não obrigação da igreja”, pondera. Ele enxergou justiça no caso de Carlos Araújo. “É a mesma coisa que trabalhar em uma loja de roupas e ter de vender tanto em mercadorias. Aí,[o pastor] tem todo o direito de acionar a ‘empresa-igreja’”. No entanto, prefere que seu trabalho tenha caráter apenas espiritual. “Meu patrão é Deus”, encerra.

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Thu, 03 May 2012 11:56:49 +0000 Thu, 03 May 2012 11:56:49 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=853
Ideias são como sementes ? Estabilidade

Se o prezado leitor não acompanhou os últimos textos desta coluna, convém informar que estamos, ao longo das últimas edições de CRISTIANISMNO HOJE, publicando uma série cujo objetivo é compartilhar oito ideias espirituais que mudaram a história da espiritualidade cristã. Esta é a sexta, e estabilidade é o seu nome. Sim, fazer votos a Deus assumindo um compromisso com a estabilidade é uma poderosa ideia!

É, no mínimo, curioso notar que, hoje, a palavra estabilidade tem uma conotação essencialmente material, com um claro viés socioeconômico. Assim, falamos de estabilidade no emprego, de estabilidade financeira, de estabilidade através da aquisição da casa própria... A noção de estabilidade virou, em nossos dias, sinônimo de segurança. Ela seria, nessa ótica, um estado de tranquilidade material, advinda do acúmulo de recursos que nos possibilitem comer, nos vestir, ter acesso a lazer e qualidade de vida e ter alguma reserva para a aposentadoria. Todavia, a ideia de se fazer um voto de estabilidade está longe desses significados modernos. O voto de estabilidade tem um contexto históricos específico. Ele nasce no ambiente monástico e carrega consigo uma preciosa sabedoria.

Essa busca pela estabilidade tinha por trás de si, em primeiro lugar, uma luta contra a inconstância. Mudanças são maravilhosos elementos para o nosso crescimento. Através delas, enfrentamos desafios que rompem nossa zona de conforto e nos fazem sair do lugar. Mas existem pessoas que nutrem uma relação patológica com a mudança. Elas se enjoam rápido de uma novidade; então, para manter a alma viva, pulam para uma outra coisa nova. Mudam tanto, que são inconstantes – não criam raízes, não concretizam quase nada. É contra esta patologia chamada inconstância que nasce o voto pela estabilidade. Ser estável não é fechar-se ao novo, mas sim, encontrar a imensa alegria que existe em solidificar conquistas, colher semeaduras, submeter-se a rotinas capazes de gerar hábitos formadores de um destino.Outro elemento contra o qual a estabilidade se insurge é o impulso cego. Decisões tomadas por impulsos são, quase sempre, desastrosas. Impulso é um movimento instintivo, uma resposta automática a um estímulo externo. Ele obedece ao calor da hora e simplesmente acontece. Impulsos fazem parte do nosso ser, mas não podemos permitir que nos dominem, que sejam a base da nossa vida. O voto pela estabilidade nos ajuda a dizer não aos impulsos. Estabilidade é o oposto do impulso, e resulta em maturidade e solidez. Ser estável não é anular o impulso, mas conviver com ele de maneira a não permitir que ele seja a matriz das nossas decisões.

O romance Horizonte perdido fala de um lugar fictício chamado Shangri-lá. Ele é uma espécie de paraíso, com tudo o que um ser humano deseja: tranquilidade total, um ambiente em que o verde das matas e o azul dos lagos formam um cenário ideal de descanso, onde tudo é novo e excitante. Na verdade, todos somos atraídos por um Shangri-lá. No fundo, ele é o lugar em que não estamos, o tempo que não vivemos, a experiência que não tivemos; enfim, o local idílico e irreal que nos cega para a realidade, a rotina na qual vivemos, o tempo e o lugar em que estamos. Pois o voto pela estabilidade nasce para nos ajudar a perceber que o aqui e agora, o lugar que estamos construindo nossa história, está cheio de beleza. O tédio que nasce da familiaridade, do costume com as mesmas coisas de sempre, leva-nos a pensar neste lugar inexistente. A estabilidade nos ajuda a plantar os pés onde estamos. Ela não fecha a porta para o novo; apenas nos ensina a achar novidade naquilo que se repete.

A busca por esta estabilidade fez florescer toda uma geração de homens e mulheres que, paradoxalmente, quanto mais se enraizavam, mais criavam coisas novas. Gente comprometida em terminar o que começou, em solidificar o que estava em andamento, de não mudar pelo simples sabor da novidade. Quem sabe, nesse tempos nos quais somos tão estimulados a viver ao sabor dos impulsos, de mudar sempre, indiscriminadamente, e de buscar uma felicidade que se parece com a linha do horizonte – quanto mais perto chegamos dela, mais ela se distancia de nós. Quem sabe se todos nós não estamos precisando fazer um voto de estabilidade para com Deus?

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Thu, 03 May 2012 11:45:53 +0000 Thu, 03 May 2012 11:45:53 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=852
O lugar do pastoreio

Comunidades cristãs vão se formando com novas caras e facetas no Brasil, em todas as classes sociais. Casas, escolas, hotéis, clubes e ginásios tornam-se caminhos diversos, mais interessantes e pertinentes dependendo da realidade urbana para sua instalação. Pensar em ajuntamento de cristãos nos templos com projetos arquitetônicos tradicionais ou contemporâneos, com médios e grandes espaços cada vez mais difíceis e raros, e com toda sua complexidade legal, financeira e estrutural, vai se tornando um projeto menos desejável e viável para muitas igrejas e grupos eclesiásticos.

Em cima dessa realidade desafiadora e pouco encorajadora, o pastoreio é ainda um caminho mais complexo, no qual, muitas vezes, a expectativa pela ação pastoral diante das necessidades das pessoas em dor, sofrimento e outros diversos clamores vai dando lugar a sentimentos e percepções extremas: uma parte do rebanho continua desejando esse cuidado pessoal e acolhedor dos pastores e da liderança, enquanto que gente com boa quilometragem, rodada nas igrejas, já “jogou a toalha” e não acredita mais ser possível esse pastoreio, vivendo uma insatisfação contínua. Alguns buscam caminhos de sobrevivência em movimentos localizados e nas redes sociais; outros simplesmente desistem e se afastam dos ajuntamentos.

Pela extrema valorização da figura ou da autoridade de pastores, numa cultura como a nossa – na qual os grandes líderes são incensados e onde se cria e nutre uma relação de extrema e inapropriada dependência –, vai se esvaziando o cuidado e a responsabilidade de um para com outro no rebanho. Desvalorizam-se os membros do corpo de Cristo, com seus dons e funções, e o senso de responsabilidade de cada irmão em oração, acolhimento, compartilhamento, conselho mútuo, exortação, visitação, serviço e fortalecimento de amizades espirituais. Jogar a responsabilidade do cuidado pastoral somente sobre uma pessoa ou uma reduzida liderança é, no mínimo, irreal, imprudente e imaturo, seja em grandes ajuntamentos ou não. Claro, não se pode minimizar a importância daqueles que receberam dons específicos para serem pastores e mestres, presbíteros e diáconos, conforme a recomendação bíblica. Mas tal esvaziamento reflete, em primeiro lugar, o descuido de muitos irmãos no cultivo de uma espiritualidade saudável. Eles abriram mão da oração e da meditação na Palavra, da comunhão com Deus Pai, Filho e Espírito Santo em primeiro lugar. A desvalorização da intimidade e do alimento da fé, e da uma dependência maior de Deus, foi deixando lacunas significativas.

Em segundo lugar, a supervalorização de pessoas, e a dependência exagerada delas, acabou trazendo como consequência a superficialidade Uma vida superficial, sem características de profundidade e maturidade, e destituída de uma visão encorajadora da fé cristã e da missão que nos foi confiada por Jesus Cristo é o resultado disso. Acabamos nutrindo uma visão egoísta e antropocêntrica, quase sempre ignorando o próximo a quem temos de servir e ajudar com o que somos e possuímos. Membros de ajuntamentos vão se tornando mais exigentes, achando que as igrejas precisam saciar suas necessidades nem sempre legítimas diante da proposta bíblica da natureza e missão da Igreja. Então, o mercado da fé percebe a lacuna e acaba se instalando para compensar aquilo que nós não encontramos no pastoreio ou na ação pastoral cuidadosa.

Seja com que formato for e onde se instalarem, os ajuntamentos cristãos não podem abdicar da verdade do Evangelho, da mensagem das boas novas e de todo o conselho de Deus que é a sua Palavra. Ora no meio de desertos e provas, ora em pastos verdejantes e águas tranquilas, ovelhas precisam, em primeiro lugar, depender mais do pastor Jesus e buscar crescimento nesta relação de dependência e mentoria; em outras palavras, depender mais de Deus do que de homens, sem desmerecer o valor do corpo de Cristo e das pessoas e líderes que o Senhor tem colocado em seu caminho. Tudo isso para sermos melhores testemunhas, melhores servos, melhores cristãos, vivendo a experiência comunitária de forma consciente e responsável e que não nos deixe perder o compromisso e a vivência da missão cristã – e, muito menos, nossa responsabilidade de anunciar e sinalizar o Reino.

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Thu, 03 May 2012 11:41:36 +0000 Thu, 03 May 2012 11:41:36 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=851
Prioridades na ação pastoral

Na ação e no trabalho pastoral, temos muitas urgências e enfrentamos situações diversas e complexas. Elas se misturam com os desafios e anseios pessoais de cada líder, com as tantas solicitações familiares e as demandas de seus próprios corações. Diante de realidade tão abrangente e desafiadora em tantos contextos diferentes, que nos chama para uma vida e um ministério relevantes, é muito difícil estabelecer prioridades que nos ajudem a desenvolver uma espiritualidade frutífera onde estamos plantados.

Apesar da complexidade e da diversidade de tais relações, podemos sugerir e mapear algumas prioridades. Através delas, sentimo-nos mais estruturados, aptos e disponíveis para sermos usados pelo Senhor, com maior dedicação, na implantação de seu Reino. Um equilíbrio entre as prioridades e uma pertinente flexibilidade naquilo que se apresenta diante de nós pode ser um caminho saudável e propício. Meus mentores me ajudaram muito nesse processo, acompanhando muitas situações que vivi – e ainda vivo.

Conhecer ao Senhor e ter intimidade com ele, uma intimidade cultivada pela meditação e oração, é a primeira dessas prioridades. Sem conhecermos seus pensamentos e sua vontade, não teremos condições de conhecer mais de nós mesmos, das pessoas e da sociedade onde estamos inseridos. Um conhecimento não apenas de ouvir falar, mas de vivenciar esta comunhão e amizade no dia a dia. Um conhecimento que traz transformação e cria um terreno fértil e um alicerce forte para o que estamos construindo em nossa vida pessoal e ministerial.

A segunda prioridade é conhecer mais de você mesmo. Aprender a lidar com as descobertas, com as virtudes e limitações que temos, pode nutrir esta jornada que certamente nos levará a uma maturidade maior e a um crescimento espiritual qualitativo, trazendo transformações para nosso caráter e personalidade. Conhecer o próprio coração, que é enganoso na avaliação do que é realmente importante, é de fundamental importância – e ajuda-nos a perceber que precisamos do Espírito Santo dentro de nós, trazendo discernimento, sabedoria e coragem para sermos o que precisamos ser como cristãos.

A terceira prioridade é buscarmos construir um ambiente saudável e amoroso na família onde estamos inseridos. O cuidado do cônjuge e dos filhos trará para nós não somente cansaço e desgastes pelos desafios no cotidiano, mas água fresca, aroma, sabor, amizade, acolhimento, brilho nos olhos, alegria e, principalmente, amor. Onde existe relacionamentos de verdade, compromisso, transparência e perdão, vamos percebendo crescimento, fortalecimento e beleza. Com isso, ganhamos forças para sermos cristãos mais integrados com a vida e obra de Deus. No lar, temos um ambiente onde não precisamos representar; ali, estamos desnudados, e encontramos uma reserva de paz e espiritualidade na qual recobramos os focos e alvos de nossa jornada.

A conexão com a realidade deve ser nossa quarta prioridade. E ela é vital para a ação pastoral. Essa conexão nos torna conscientes do mundo onde estamos inseridos, com todos os seus desafios: uma sociedade complexa em seus problemas, violenta, marcada pela desigualdade social, sucateada de serviços básicos e corrupta em todos os níveis. São muitos os gritos de socorro, grande é o sofrimento e numerosos os sinais de morte presentes nela. Eles ecoam da periferia, do campo, do mundo estudantil e acadêmico, da realidade corporativa, onde precisamos de testemunhas e referenciais do Evangelho de serviço, justiça e amor. Homens e mulheres estão perecendo sem Jesus e sentido na vida.

Uma quinta prioridade deve ser o crescimento pessoal do líder e pastor. Tempo, disciplina, agenda e sustento são necessários. Buscarmos aprofundamento, formação em outras áreas, aconselhamento e acompanhamento, dividindo as cargas e desafios emocionais, psicológicos, espirituais e ministeriais, também. Pastores e líderes também precisam ser pastoreados e cuidados. Isso é vital para uma vida no pastorado e na ação ministerial. Não estamos sozinhos no Reino, nem na Igreja. Tampouco devemos caminhar solitários na jornada de serviço e missão. Cabe-nos ter atenção, sabedoria e sensibilidade, e Deus nos capacitará e fortalecerá.

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Thu, 03 May 2012 11:34:01 +0000 Thu, 03 May 2012 11:34:01 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=850
Graça e meritocracia

Ouvi do subsecretário de Ações Estratégicas da Secretaria de Assuntos Estratégicos do Governo Federal, Ricardo Paes de Barros, a seguinte frase numa entrevista: “Esta nova classe média fala muito de meritocracia; eles esquecem que muito de seu sucesso se deve à solidariedade e começam a falar sobre mérito”. Espantei-me ao ver ali a palavra meritocracia, cujo significado, segundo o Aurélio, é “um sistema em que os mais dotados ou aptos são escolhidos e promovidos conforme seus progressos e consecuções”.  Eu não imaginava que a nova classe média brasileira, que tanto sofreu nos estratos mais baixos da pirâmide social, já fosse capaz de demonstrar ares meritocráticos tão rapidamente. E isso é extremamente preocupante.

Sou um grande crítico da meritocracia. Acredito que ela só poderia se aplicada em sua totalidade se houvesse a igualdade absoluta entre as pessoas. Ou seja, uma sociedade meritocrática só seria justa na medida em que todos os seus membros nascessem absolutamente iguais e tivessem chances equivalentes na vida. Como isso não acontece, a meritocracia plena é utópica, e aqueles que a defendem como justa vivem no mundo da fantasia. Se quiséssemos realmente aplicar a meritocracia, teríamos que acabar com o direito de herança. Afinal, que mérito existe em se herdar fortunas e propriedades dos pais?

Podemos ir ainda mais longe. Concursos públicos aprovam justamente aqueles mais aptos e melhor preparados. Mas é justo que aqueles que estudaram à noite, após horas no trabalho, sejam avaliados da mesma forma que candidatos de melhor poder aquisitivo, que se dedicaram de forma integral ao concurso? Não, não é justo. É claro que permitir que cada repartição contrate quem quiser daria margem ao nepotismo e a outras atitudes ainda mais desonestas. Beste sentido, o concurso público passa a ser melhor – ou menos pior – opção. Já o modelo de quotas para negros, tão discutido no Brasil, traz em seu âmago um antídoto à meritocracia. Afinal, trata-se de uma tentativa de compensar a falta de “mérito” dos negros, tão desfavorecidos ao longo da história brasileira. Por isso, o sistema de quotas têm sua validade, e qualquer tentativa de tornar a sociedade mais igualitária deve ser valorizada.

Mas o maior problema da meritocracia não está em dar poder, recursos e mais oportunidades aos mais aptos e com mais “mérito”. O problema está em justamente retirar poder, liberdade, oportunidades e direitos daqueles menos preparados. Ou seja, no seu limite, a meritocracia é um sistema onde os menos aptos são massacrados pelos mais capazes – um verdadeiro darwinismo social. No campo da fé, o catolicismo possui um lado bastante meritocrático, ao valorizar a salvação pelas obras e condicionar o céu e o inferno às atitudes do cristão ao longo da vida. Já o protestantismo passa, na teoria, bem longe da meritocracia, pois defende a salvação pela graça. E a graça é justamente o oposto da meritocracia, pois significa receber algo que não merecemos. Deus, em sua bondade e justiça, é absurdamente antimeritocrático. Paradoxalmente, no entanto, os Estados Unidos, maior país de tradição protestante, são tomados de uma meritocracia atroz, capaz de permitir que seus cidadãos menos favorecidos sofram até pela falta de atendimento médico.

O paradoxo é estranho e parece que a maioria dos americanos se lembram apenas dos galardões no céu, esquecendo-se da graça que Deus lhes concedeu. Como cristão, a meritocracia me parece absurdamente incompatível com a graça divina, a qual deveríamos incorporar em nossas vidas. OK, os meritocratas costumam dizer que muitos não querem trabalhar e não é justo que se beneficiem do trabalho comum da sociedade. Mas a maioria dos necessitados que vivem nas sociedades ditas meritocráticas não são carentes de vontade de trabalhar, mas sim, de oportunidade – e mesmo as que se recusam a trabalhar têm direito em minha opinião a um padrão mínimo de sobrevivência com dignidade. Quando João Batista disse “quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo”, ele não mandou averiguar se a pessoa necessitada trabalhava ou não, nem qual o motivo pelo qual não tinha túnica ou comida. Ele disse apenas que deveríamos repartir o que temos.

Todo cristão deveria questionar o conceito de meritocracia e contrastá-lo com a graça de Deus, lembrando-se sempre de que, se o Senhor fosse um meritocrata, arderíamos todos no fogo do inferno.

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Thu, 03 May 2012 11:28:56 +0000 Thu, 03 May 2012 11:28:56 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=849
Espiritualidade egolátrica

A egolatria não é o simples cuidado do indivíduo consigo mesmo. Cuidar de si mesmo, afinal, é uma virtude. Quando praticamos o cuidado conosco mesmos, aprendemos a amar mais as pessoas. A egolatria não é também um sentimento de egoísmo. O indivíduo egoísta tem a expectativa de que todas as coisas e pessoas estejam em torno de seus interesses. Sem dúvida, isso é pecado; mas não é, ainda, um culto ao ego. Isso porque, enquanto o egoísta deseja que todas as coisas existam para atender seus interesses, o ególatra acredita que tem o poder para mover todas as coisas e pessoas em torno de si. A principal marca do ególatra é a cobiça, às vezes demonstrada por atitudes extremas. Tal sentimento foi muito bem exemplificado na proposta do diabo a Cristo: “Tudo isso te darei se, prostrado, me adorares.”  

A egolatria é mais danosa do que a idolatria. E existe, lamentavelmente, uma espiritualidade ególatra, aquela que é caracterizada pela prática religiosa cujas celebrações e liturgias favorecem a promoção de personalidades. Na idolatria, a divindade é inanimada; o ídolo não controla a situação. Já na egolatria, o ego-deus tem boca e fala; tem nariz e cheira; tem pés e anda. Ele tem uma inteligência cheia de artimanhas; em geral, possui carisma e cativa as massas. O ego-deus consegue passar a ideia de que foi o único dotado para uma missão especial – assim, possuiria poderes especiais, como uma capacidade mística de desvendar os mistérios escondidos no além e trazer revelações sobrenaturais.

Nas instituições caracterizadas pela egolatria, há a necessidade de intermediários entre os devotos e o divino. Por essa razão, os cargos e papéis espirituais são uma espécie de concessão do ego-deus a esses intermediários, sob a condição de trocas simbólicas e materiais. Diante de um ego-deus, todos os seguidores obedecem, sem o mínimo de discernimento. Qualquer atitude crítica é denunciada como rebeldia intolerável. A egolatria é marcada pela necessidade de promoção pessoal, vanglória e arrogância. Os ególatras necessitam de títulos que os façam diferentes. Em se tratando da vocação pessoal, os dons e ministérios não representam habilidades para servir às pessoas; eles são, isso sim, títulos particulares, espécie de insígnias ostentadas como demonstração de poder e domínio. Nos ambientes marcados pela egolatria, títulos que, em si mesmos, em nada credenciam seus detentores como sobre-humanos – como pastor, padre, bispo, apóstolo –, assumem um significado de divinização de indivíduos em seus feudos religiosos e redes de submissão ao seu controle.

Na espiritualidade ególatra, o sacerdote se confunde com a divindade. O agente mágico e a divindade fundem-se numa só personalidade. Mas o ego-deus é materialista, possessivo, vingativo; seu discurso não glorifica ao único Deus, Senhor dos céus e da terra, mas favorece a própria dominação, estimula a vassalagem dos seguidores e legitima a dinâmica do poder. A legítima pregação bíblica é substituída por um discurso caracterizado por frases-feitas e palavras de ordem supostamente capazes de mover a mão divina, decretar a bênção e promover bem estar físico e material aos adeptos – normalmente, em troca dos chamados sacrifícios, quase sempre realizados através do dinheiro.

Se, numa determinada comunidade, as pessoas estão dando mais ênfase à experiência espiritual que isola, discrimina os de fora e põe os supostamente espiritualizados em pedestais, é bem provável que estejamos diante da espiritualidade egolátrica, e não do modelo proposto por Jesus Cristo. No Evangelho de Cristo, o que é aparentemente oculto é revelado aos pequeninos do seu Reino. As boas novas “escondidas” em Deus, de fato, estavam sempre presentes; todavia, os seres humanos sofisticados não compreenderam a singeleza dessa mensagem: a de que aos pobres e aos pequeninos é que foram reveladas as boas novas a respeito do Reino de Deus (Lucas 10.18-19). As “revelações” recebidas pelos poderosos dos empreendimentos religiosos não dizem respeito à mesma revelação anunciada pelo Filho de Deus aos pobres e pequeninos.

É muito importante que saibamos discernir entre a espiritualidade revelada por Jesus de Nazaré e aquela praticada nas ambiências egolátricas da cristandade brasileira.

 

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Thu, 03 May 2012 11:23:45 +0000 Thu, 03 May 2012 11:23:45 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=848
Suor abençoado

Eles dividem o púlpito com os ferros da academia, mantêm-se ativos, consultam o médico regularmente e não abrem mão do descanso e do lazer. À mesa, não cometem os exageros de seus colegas das gerações passadas – ao contrário, procuram seguir dietas balanceadas e passam longe das gorduras e, claro, do álcool. Cuidam do corpo com esmero, fazem corridas e caminhadas toda semana e dividem o tempo entre meditações bíblicas, visitações e aconselhamentos e jogos de futebol, sessões de natação e até mesmo lutas nos ringues e tatames. São os pastores da geração-saúde, líderes cristãos que têm descoberto na atividade física uma bênção para o corpo, a alma e o espírito. E, se alguma concessão à vaidade é inevitável – afinal, quem não gosta de sentir-se bom consigo mesmo e de apreciar o que vê no espelho? –, esses ativos ministros do Reino de Deus querem envelhecer sem perder a vitalidade e a disposição indispensáveis ao exercício da obra do Senhor.

Quase todos estão na faixa entre os 30 e os 50 anos, aquela idade em que o corpo começa a dar os primeiros sinais de desgaste. Já que, segundo o sábio de Eclesiastes, na velhice chega um tempo em que tudo parece canseira e enfado, eles sabem que a hora é agora. Por terem a consciência de que a primeira metade da vida já se passou e que é preciso planejar com carinho o tempo que resta, gente como o pastor metodista Ziel Machado, 50 anos, sua a camisa a dá glória a Deus por isso. Desportista aficionado na juventude, ele tornou-se sedentário na idade adulta e o acúmulo de compromissos tornou-se uma regra em sua agenda. “Comecei a sofrer com o sobrepeso e o médico recomendou que voltasse à prática regular de esportes”, lembra. Há três anos, Ziel dedica-se a corridas de rua e maratonas, com treinamento específico e orientado por profissionais. “Minha vida mudou”, entusiasma-se o pastor.  “Perdi 35 quilos e ganhei uma condição ativa e saudável. Recuperei a qualidade de sono e a capacidade de lidar melhor com o estresse”.

Um processo de reeducação alimentar completou o quadro. “Essa dinâmica me dá uma disposição renovada para tudo o que preciso fazer, e ainda ganhei novos amigos neste mundo da corrida”, revela. Segundo Ziel, sua decisão causou certa estranheza entre as ovelhas e os conhecidos. “Em um primeiro momento, muitos se assustam quando sabem que sou pastor. Eles têm uma imagem muito negativa em relação aos pastores evangélicos nesse aspecto físico, e têm razão para pensar assim”, reconhece. Ele já tem um grupo com o qual treina junto e participa de competições – gente que, naturalmente, procura evangelizar. “Já tive o privilégio de ver dois deles se decidirem por Cristo e hoje estão firmes em sua igreja”, conta. Mesmo quando está viajando a serviço do ministério, o pastor encontra um tempinho para dar seguimento ao programa físico, já que segue uma planilha individualizada de exercícios. “Tenho aprendido muito sobre a importância da atividade física, da alimentação, da respiração e do descanso”. Além de tudo, diz Ziel, a prática da atividade física tem sido uma forma concreta de aprender novas disciplinas. “É possí­vel e necessário ser um bom administrador deste presente valioso que Deus nos deu, a vida.”

Autor de uma tese de mestrado intitulada Saúde dos líderes religiosos: A vocação em sintonia com a saúde pessoal, o cardiologista Maurício Rocca acompanha de perto a vida de 60 ministros de diferentes denominações evangélicas e alguns padres católicos. Ele apresentou o trabalho na Universidade Metodista.  “Como verdadeiramente se encontra a saúde dos líderes religiosos? Eles têm olhado para si mesmos com um olhar de cuidados? Têm vivido a qualidade de vida que sua função apregoa, mas também necessita?”, indaga no trabalho. Rocca, que também é teólogo e pós-graduado em aconselhamento pastoral, ministra palestras em grupos de homens e igrejas. Uma das prioridades é estimulá-los a cuidar do corpo – e uma das melhores maneiras de fazer isso é o exercício físico, até pela sensação de prazer que ele proporciona. “Hoje, as pessoas adoecem em fases mais precoces da vida, devido às exigências profissionais e pelo estilo de vida contemporâneo”, observa. Em sua tese, o médico alerta para o fato de que a desatenção com a saúde pode colocar uma vocação em risco.

 

CORPO EM MOVIMENTO

A pastora Silvia Geruza Rodrigues, da Igreja Betesda de São Paulo, já descobriu há tempos os benefícios do corpo em movimento. Dançarina de balé clássico na infância, ela passou à aeróbica na época em que se casou com o pastor Ricardo Gondim, outro entusiasta das corridas. “Fiz academia, dança moderna e natação”, conta a pastora. Hoje, aos 52 anos de idade, vê-la de short, camiseta e tênis é tão comum como encontrá-la de tailleur no púlpito de sua igreja. “A melhora no físico, na vitalidade e na disposição depois da corrida me fez gostar tanto que não quero mais parar”, atesta.  A auto-estima, claro, também entra na equação da saúde: “Minhas roupas mudaram de 42 para 38, sem contar a tonificação no corpo por inteiro”.

Geruza pedala, faz musculação e nada pelo menos quatro vezes na semana. E acha importante para a igreja ter um pastor saudável no púlpito. “Ele acaba sendo uma influência para os membros também nesta área, já que outros seguirão seu exemplo”. Para ela, é fundamental que os pastores busquem meios de ter mais vitalidade e energia. “Assim, terão mais condições para vencer as lutas diárias, que são muitas em uma igreja”. De fato, buscar o equilíbrio em tudo pode parecer elementar, mas é coisa que nem todo mundo consegue. E, a julgar pela quantidade de pessoas com problemas de saúde decorrentes da inatividade física, fica claro que entre a intenção e a prática existe um abismo. Para os pastores, então, as mais diversas desculpas são invocadas para a acomodação, da falta de tempo à necessidade de dedicação ao estudo bíblico e à oração, e eles acabam carregando mesmo apenas a Bíblia. Verdade que nem sempre por falta de responsabilidade: “A maioria deles vive de forma intensa sua vocação”, observa o psicólogo Rangel Fabrete. Evangélico, ele é ligado à comunidade evangélica Projeto 242, na capital paulista. “Muitas igrejas ‘usam’ tanto o seu líder que ele não tem tempo de envolver-se com outras atividades que não as ministeriais”.

Membro do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos, Rangel lembra que a qualidade de vida passa por diversos aspectos, dos quais a saúde é primordial. “Cristo ensinou sobre a necessidade de o homem amar a si mesmo”. O próprio terapeuta mudou o estilo de vida ao perceber que a obesidade vinha prejudicando sua saúde – com o acúmulo de gordura, vieram a hipertensão e as dores ao caminhar. Após submeter-se a uma gastroplastia, passou a fazer exercícios e hoje frequenta academia de ginástica.  “Os pastores precisam inserir em suas agendas o investimento na própria saúde”, defende o cardiologista Mauricio Rocca . “A visão do pastor como super-homem caminha para a extinção”. Na opinião do médico, isso, por si só, já representa um avanço.  “Não adianta apenas orar e acreditar que Deus cuida da nossa saúde se estivermos 20 quilos acima do peso ou cometemos excessos frequentes”, salienta. “Se realmente creio que o meu corpo é templo do Espírito Santo, então preciso respeitá-lo como tal”.

Carlos Alberto Bezerra Jr, pastor e médico , destaca que a busca por uma vida saudável, além de agradar ao Senhor, não tem nada a ver, como muitos crentes ainda pensam, com hedonismo: “A motivação certa é o zelo consigo mesmo”.  Bezerra, que pertence ao quadro ministerial da igreja Comunidade da Graça e ocupa o cargo de deputado estadual em São Paulo, ressalta que alguns pecados pouco comentados, como a glutonaria, prejudicam e muito a saúde, assim como práticas tradicionalmente condenadas pelos crentes, como consumo de bebidas alcoolicas e o uso do cigarro.

 

“ENERGIA PARA O MINISTÉRIO”

Líder de uma comunidade caracterizada pela presença maciça de jovens, Rinaldo Luiz Pereira, apóstolo da Igreja Bola de Neve, é o exemplo acabado de pastor da geração-saúde. Ele nada, surfa, corre, faz musculação e ainda joga futebol com seus presbíteros e diáconos. Aos 38 anos, Rina, como é conhecido entre seus fiéis, mantém a saúde em dia evitando carboidratos e gorduras em excesso e dormindo no mínimo seis horas por dia.  “No passado, fazer esporte e descansar era quase um pecado. Os líderes até se sentiam culpados por se divertir ou praticar exercícios”, explica. Para ele, é compensador o hábito de exercitar-se regularmente. “Pessoas que fazem isso estão sempre mais dispostas e cheias de energia. Se canalizada para o ministério, essa energia promove criatividade, participação e estímulo”, enumera. Além disso, Rina acredita que a prática de esportes facilita sua aproximação com os membros da igreja e promove um ambiente muito agradável na igreja. Na Bola de Neve, muitos pastores são também desportistas. “É quase uma exigência minha”, brinca.

O pastor André Paes, 40 anos, da Comunidade Batista em Vila Bastos, em São Paulo, é outro que não para quieto no púlpito. Adepto das corridas de fundo, ele faz parte do grupo Link Runners, turma de atletas amadores. “Terminaremos 2011 na Corrida de São Silvestre”, avisa André, referindo-se à tradicional prova de rua realizada no último dia do ano na capital paulista. Para ele, a atividade física é quase um sacerdócio: “Não cuidar da saúde pode ser um sinal de incoerência com a mensagem que pregamos. Se temos de ser bons mordomos de tudo que o Senhor nos dá, porque deixar a saúde de fora disso?” A prática da corrida é para o pastor André uma excelente forma de desenvolver disciplina e de relaxar. “Às vezes, até uso o tempo para ouvir canções de louvor e pregações”, comenta.

Quem sempre fez do esporte um meio de vida não encontra qualquer dificuldade para conciliar a fé com o suor. Campeão em 1994, na Copa do Mundo dos Estados Unidos, Paulo Sérgio Silvestre do Nascimento encerrou a carreira nos gramados de futebol em 2003, e desde então se dedica a múltiplas atividades: preside Atletas de Cristo – o mais expressivo ministério cristão ligado aos esportes no Brasil –, administra um centro esportivo e é pastor da Comunidade Transformados pela Fé. Ele encontra tempo também para fazer musculação, correr quatro a cinco quilômetros várias vezes na semana e, naturalmente, bater sua bolinha. O fôlego para tudo vem de uma vida regrada, nem sempre comum entre jogadores profissionais de futebol – aos 42 anos, casado, o pastor tem dois filhos e é um sujeito família. Mas a prática esportiva, claro, é fundamental para ele. Paulo faz analogia com um princípio bíblico para explicar a importância da prática esportiva para todo crente, e o pastor, em particular: “Para acompanhar as ovelhas, o pastor tem que estar com bom preparo físico. Se deixar a desejar, elas vão fugir. Existem pastores obesos, que se cansam com facilidade até durante uma pregação.”

Aos 97 anos de idade e mais de sessenta como ministro do Evangelho, o pastor batista Enéas Tognini já viu muitos colegas morrerem precocemente porque não se cuidaram devidamente. “Trabalhavam demais, não tinham descanso”, conta o veterano pregador. Embora faça parte de uma geração normalmente interessada em cultivar apenas a saúde espiritual, Tognini jamais foi relapso consigo mesmo. “Se eu ficar doente, não poderei fazer mais nada. Aí, ao invés de trabalhar, vou é dar trabalho aos outros”, raciocina, com lógica irrefutável. O religioso lembra de sua época, quando não havia tantas facilidades para exercer o pastorado. “Eu trabalhava demais. Ficava até sem dormir”. Hoje, não abre mão do descanso.

Embora a idade impeça atividades de impacto, Tognini mantém-se ativo. É pastor emérito da Igreja Batista do Povo, que fundou na década de 1960. Regularmente, prega, visita ovelhas, profere aulas e palestras e ainda viaja bastante. “Faço tudo o que é orientado pelo médico para dar um pouco de vigor”, garante. O consumo de vitaminas e fortificantes ajuda o pastor a manter a saúde, assim como o rigor com sua própria agenda pessoal. “Essa história de que o sujeito não pode parar é conversa. Os pastores novos precisam aprender que é necessário o equilíbrio entre o trabalho e o descanso, entre necessidade e saúde. Se ele aprender a se cuidar, será mais produtivo e vai longe”, ensina o nonagenário.

 

DISCIPLINA

Pastor da Igreja Assembleia de Deus Ministério Bethel, no Espírito Santo, Moacyr Junior  não apenas pratica esporte, mas faz dele parte essencial de seu ministério. Detentor de títulos importantes no judô, inclusive em nível internacional, ele competiu profissionalmente até 2005 e atualmente, com 33 anos, coordena um projeto social onde o desporto é a base. Bastante atarefado na igreja e na vida pessoal, ele quer chegar aos 100 anos com um coração de trinta. “Isso, se Jesus não voltar antes”,diverte-se. “Além de profissão, o esporte tornou-se para mim ferramenta para ajudar as pessoas”, explica. Apaixonado pelas lutas, ele tem várias classes de judô, inclusive para crianças, e também treina muay-thai, tipo de combate esportivo originado na Tailândia. Por isso, diz, está sempre bem preparado e disposto para as exigências diárias. E deseja o mesmo para seus colegas de ministério. “Percebo que o número de pastores cuidando da saúde assim tem aumentado, principalmente no segmento renovado, onde os preconceitos são menores”.

“Comecei como a grande maioria: querendo perder peso e, ao mesmo tempo, mexer o corpo para melhorar a mente”, resume o pastor batista Valdemar Figueredo Filho, um dos colunistas de CRISTIANISMO HOJE. A natureza privilegiada do Rio de Janeiro, onde vive, é um estímulo ao esporte, e Valdemar, adepto das corridas de rua, não se faz de rogado: “Regularidade é fundamental”, ensina. “Quando deixo de correr, fico ansioso, até com sentimento de culpa”. Desde 2003, ele participa de provas como a Meia Maratona Internacional do Rio e as Maratonas Caixa. “Percebi que não tinha mais volta”, diz Valdemar. Sem grandes pretensões por resultados, o pastor diz que o que vale é terminar as provas e fazer o que gosta. “Essa atividade ajuda-me nas disciplinas em todos os âmbitos da vida, alem de ser saudável e divertida, imperativa para o bem-estar”, enumera.

O pastor diz que até ideias para sermões surgem em sua cabeça enquanto está correndo ou caminhando. Além disso, garante, a busca por melhor desempenho faz com que realiza exames periódicos e monitore a saúde com mais prudência. Quem ganha com isso, além dele mesmo e de sua família, é a igreja e o próprio ministério: “Ser exemplo de piedade com uma vida sedentária é uma contradição”, aponta Valdemar. “Seria ótimo se a igreja fosse um espaço em que a saúde espiritual não estivesse separada da saúde física e mental.”

 

 

De corpo e alma

O exercício físico é um santo remédio. Reduz o colesterol, previne o diabetes e as doenças cardiovasculares, melhora a qualidade do sono, aumenta a auto-estima e a disposição para as tarefas pessoais, favorece a integração social, alivia o estresse, reforça o sistema imunológico, ajuda na disciplina... Enfim, só traz vantagens para quem o pratica. Contudo, no caso de sedentários – como muitos pastores –, é preciso tomar alguns cuidados antes de sair correndo, nadando ou pedalando, bem como tomar algumas decisões:

  • Pessoas na faixa dos 40 anos precisam submeter-se a avaliação médica antes de iniciar a prática;
  • 30 minutos de atividade física, ainda que seja uma simples caminhada, já é um excelente começo. Mais tarde, pode-se variar as atividades físicas e sua intensidade em sem exageros, já que cada indivíduo tem seu limite;
  • Como nem todos têm condições de frequentar academias, encontre maneiras de se exercitar, ainda que em casa ou no intervalo entre um aconselhamento e uma pregação. A internet está cheia de boas sugestões e orientações para amadores;
  • Acompanhe a rotina de exercícios com uma dieta balanceada. Ainda que um excesso ou outro possa acontecer – sobretudo, nos almoços de domingo na casa das ovelhas... –, o consumo de gorduras, frituras, comida industrializada e refrigerantes deve ser exceção, e não regra;
  • Homens e mulheres adultos devem realizar exames clínicos periódicos, com análise de sangue, urina e fezes, aferição da pressão arterial e preventivos para o câncer, sobretudo de mama, próstata e intestino
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Mon, 12 Mar 2012 21:29:28 +0000 Mon, 12 Mar 2012 21:29:28 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=847
Novas mídias para uma antiga mensagem

Já lá se vão uns 15 anos da consolidação da internet como meio de comunicação, interação e informação. O advento do universo virtual, primeiro através dos computadores pessoais e, ultimamente, por meio de notebooks, iPads, tablets e muitas outras maravilhas tecnológicas, mudou definitivamente a humanidade, numa mudança que pode ser comparada, em abrangência e efeitos, à Revolução Industrial do século 18. Presente em todos os segmentos sociais e em praticamente todas as atividades humanas, a informatização já superou antigas barreiras e temores de pessoas mais conservadoras, que temiam a substituição do ser humano pela máquina. Isso porque, incorporada definitivamente à sociedade contemporânea, a internet é hoje parte essencial do aparato de qualquer pessoa, seja no ambiente de trabalho, no lazer, nas relações sociais, e, por que não dizer, na vida espiritual. Um dos últimos segmentos a render-se aos encantos da grande rede, a Igreja já não vê mais no computador uma ferramenta do anticristo. Ao contrário – em meio a uma geração que já nasceu plugada, a informática é hoje usada na evangelização, na edificação e na comunhão entre crentes do mundo inteiro. É um tremendo campo missionário, ainda praticamente inexplorado pelos crentes.

Com a presença cada vez maior de internautas on line (quase 75 milhões de brasileiros fazem uso regular da grande rede, segundo o instituto Ibope Nielsen), a web já é um dos espaços mais frequentados pelas pessoas, que ali se comunicam umas com as outras, trabalham, estudam, se distrem, programam a agenda e fazem compras. Grandes redes sociais, como o Facebook e o Orkut, já têm mais pessoas como membros do que a população de muitos países. Além disso, a vida virtual ganha cada vez mais horas do cotidiano do homem moderno. O Brasil, por exemplo, é a nação onde o internauta passa mais tempo conectado – uma média de 19 horas e meia por mês, segundo o Ibope Inteligense. Diante de números tão expressivos, a Igreja desistiu de demonizar a web e passou a usar suas múltiplas possibilidades para exercer atividades que lhe são essenciais, como a evangelização, o ensino bíblico, a comunhão e até a oração. Das simples mensagens por e-mail com conteúdo cristão, os crentes passaram a propagar sua fé nos chats e nas radiowebs, sem falar nos microblogs, na transmissão de cultos em tempo real e nos aconselhamentos virtuais. É o Reino de Deus tornando-se acessível a um simples clique de mouse!

Entre os grupos religiosos que exploram a web, os evangélicos estão entre os pioneiros, ao menos no Brasil. Segundo pesquisas realizadas pelo antropólogo Airton Jungblut, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul, entre os chats de conteúdo religioso, os evangélicos são os mais procurados. Na sua tese de doutorado Nos chats do Senhor, o estudioso mensura diversas características do comportamento religioso na net, mapeando o interesse tanto de discutir questões relativas a fé como de converter outros às suas doutrinas. “As razões históricas para esse movimento é que os evangélicos sempre fizeram um uso mais eficiente dos meios de comunicação de massa”, avalia Jungblut. “No passado, o uso da imprensa pelos protestantes foi fundamental para o seu crescimento. Além disso, a forte prática em busca de conversões faz com que se usem de todos os recursos possíveis para divulgar seus pontos de fé.”

Uma das características descobertas na pesquisa do professor é que essas ações na internet se davam muito mais de forma individual do que institucionalmente. Dois comportamentos que diferem aqueles militantes da fé que estavam nos chats das lideranças religiosas que buscavam se inserir na web foram identificados. “Um grupo de internautas usava a ferramenta para criar espaços de sociabilidade entre evangélicos, um uso não propriamente religioso. Por outro lado, havia aqueles que tentavam fazer da web uma extensão da igreja, reproduzindo algumas rotinas, como estudos bíblicos”, cita o professor.

 

BONDE DA HISTÓRIA

Navegar na grande rede em busca de almas e de crescimento espiritual, sem necessidade de um templo físico ou mesmo de sair de casa, pode parecer perigoso para uma crença fortemente baseada na comunhão como é a evangélica. Contudo, é inegável a eficiência dos modernos recursos tecnológicos como forma de comunicar o Evangelho – e isso está totalmente de acordo com a tradição protestante desde os tempos essencialmente analógicos. “Se estudarmos os movimentos religiosos cristãos, eles sempre valorizaram todas as formas de comunicação disponíveis no seu tempo”, destaca a jornalista e doutora em ciências da comunicação Magali do Nascimento Cunha, da Faculdade Metodista de São Paulo (Umesp). Crente metodista, ela destaca que, além das facilidades proporcionadas pela web, o baixo custo, sobretudo em comparação com mídias muito usadas pelas igrejas, como rádio e TV, faz da internet um recurso que não pode ser desprezado.

Agências missionárias e entidades cristãs não querem perder o bonde da história e já fazem do computador parte importante de seu trabalho. Diversos espaços na web para divulgação de material como textos, vídeos e cursos têm surgido, oferecendo ao internauta canais virtuais dos mais diversificados. No ano passado, a Junta de Missões Nacionais (JMN), órgão da Convenção Batista Brasileira, lançou todo o seu material de divulgação anual na internet e realizou a campanha “Vamos invadir o You Tube”, convidando os crentes a postarem vídeos evangelísticos na rede. O site foi fundado há seis anos, e a JMN também usa o Twitter, tanto para levar mensagens como para transmitir eventos relevantes. Mais recentemente, a agência entrou no Facebook com o projeto MIT (“Minuto que impacta e transforma”). “Milhares de pessoas já aderiram”, informa o pastor Marcos Azevedo, coordenador regional da JMN em Pernambuco. “A campanha tem como objetivo principal levar o povo de Deus a orar pela evangelização do Brasil”. Funciona assim: todas as segundas-feiras, os participantes separam um minuto – um minutinho, apenas – para orar, sempre ao meio-dia.

De acordo com Azevedo, o MIT também pode ser realizado em outros dias e horários, já que o que importa mesmo é ressaltar a importância da oração. Outra instituição que está se lançando na rede é a Junta de Missões Mundiais da CBB. Além do site institucional, que dispõe de informações sobre os missionários e os campos em que eles atuam, além de documentários, a entidade já está no Facebook através da JMM Jovem. Segundo o missionário Cláudio Elivan, a inserção na rede social é mantida por um grupo de colaboradores de várias regiões. Um dos principais objetivos é trabalhar a consciência da vocação entre a juventude. “Entendemos que o conhecimento coletivo é muito mais rico. Nascemos há pouco tempo, mas temos um número crescente de pessoas que curtem nossa página, nos seguem no twitter e se cadastram no nosso site”, garante Elivan. O Facebook da JMM Jovem é atualizado de segunda a sexta por um grupo de 25 redatores, que integram uma equipe on line de cerca de sessenta pessoas que, segundo Elivan, contribuem na construção de conhecimento, planejamento das ações, marketing, produção de vídeos, organização das viagens e produção de manuais, entre outras atividades.

Conhecida por sua criatividade e postura de vanguarda, a agência Jovens com Uma Missão (Jocum) não poderia estar de fora dessa descoberta ainda recente da potencialidade espiritual da internet. A regional de São Paulo da missão usa a web para despertar a visão missionária e mobilizar crentes e igrejas. Além de investir nos sites, a organização está no Twitter, com um perfil com mais de dois mil seguidores, e no Facebook, com cerca de três mil – números que, evidentemente, não param de crescer. “Não temos ainda um uso evangelístico da internet. Nossa comunicação é voltada para a conscientização da Igreja”, aponta André Rocha, relações públicas da Jocum Sampa.

Além de se constituir em um ponto de notícias do campo missionário, a web tem sido utilizada pelas organizações que trabalham com missões para divulgação de motivos de oração, criando uma grande rede de intercessores, e também para distribuir os produtos dessas organizações nas lojas virtuais. Sites como o da missão Portas Abertas ou da JMM expõem diariamente assuntos que dizem respeito às suas atividades. Os cuidados, porém, são redobrados para não expor os missionários que atuam em países ou regiões onde há perseguição religiosa. Esta é a razão, inclusive, porque tais organizações constantemente instruem os internautas a não postarem fotos ou nomes de alguns missionários. É através da internet que Portas Abertas também dá visibilidade à situação de obreiros que têm a vida ameaçada por pregar o Evangelho. Recentemente, o caso do pastor iraniano Youcef Nadarkhani – condenado à morte por um tribunal islâmico de seu país – repercutiu em todo o mundo, gerando um forte movimento internacional por sua libertação.

 

BLOGOSFERA GOSPEL

“Assim como a imprensa de Guttemberg democratizou o conhecimento pelo livro impresso, a internet está fazendo o mesmo, em uma escala muito maior, com as páginas virtuais”, afirma o blogueiro João Cruzue, presbítero da Assembleia de Deus. Os blogs – para quem ainda não sabe, uma espécie de diário, em que as mensagens e textos, chamados posts, são veiculados em ordem cronológica – são outra possibilidade que começa a ser usada de maneira intensa pelos crentes. Somente a União dos Blogueiros Evangélicos (UBE) possui cerca de 15 mil blogs filiados. Além de gratuita, uma das vantagens dessa ferramenta é a democratização da palavra. Assim, não são apenas pastores ou líderes de renome que expõem suas mensagens na rede. Qualquer crente com uma ideia na cabeça e um computador à mão, de qualquer origem ou tendência, pode fazer o mesmo, ajudando a rechear ainda mais a já incomensurável blogosfera.

Segundo Cruzue, esses diários virtuais são o primeiro degrau para a publicação de conteúdo cristão na internet, e o que os distingue é a originalidade dos seus donos. Para contribuir na formação dos blogueiros evangélicos, ele fundou a Academia dos Blogueiros Cristãos. Ali, alguns tutoriais criados por ele mesmo ensinam como criar e manter um blog, tudo de forma gratuita. Outra iniciativa do presbítero foi a Associação de Blogueiros Evangélicos, que tem o objetivo de divulgar uma ideologia: a de que o Evangelho deve, sim, ser divulgado na internet, mas com qualidade. “Há gente blogando qualquer coisa”, critica. Na sua opinião, os formadores de opinião, hoje, não são os cristãos – mas isso pode ser mudado, e a web é um bom caminho.”Vislumbro que, do meio da quantidade, surgirá a qualidade. E, para ter qualidade, é preciso compartilhar conhecimento em tecnologia de publicação de conteúdo”, defende.

Na opinião do pastor Carlos Roberto Cavalcanti, que é pesquisador do Instituto Cultural de Pernambuco, blogueiro e autor de diversos livros, a blogosfera tem sido um ambiente fértil para o ressurgimento de discussões teológicas de grande relevância para a Igreja atual – sobretudo nestes tempos em que a Igreja, como instituição, anda no foco da insatisfação de muitos cristãos. “Os jovens que não conseguem expor suas opiniões na igreja estão na internet, dando publicidade às suas decepções. Por isso, estão surgindo na web discursos em busca das antigas doutrinas da graça, que estão na raiz da Igreja”. No entanto, adverte, o fato de não haver qualquer controle sobre o que é veiculado na internet – também chamada, e com razão, de “território livre” – exige critério de quem a usa. “A disseminação de heresias é uma preocupação. Parece até que essas coisas se espalham mais rápido. Mas as pessoas devem buscar aquilo que edifica e reter o que é bom.”

Outra realidade apontada por Cavalcanti é o custo dos e-books e a possibilidade de acesso a conteúdos raros e históricos. O teólogo explora bem essas duas vantagens. Em seu estudo sobre alguns textos bíblicos que tiveram seus sentidos corrompidos pela Igreja ao longo da História, ele está fazendo uso dos manuscritos mais antigos da Bíblia – que, para a alegria de pesquisadores e curiosos, estão disponíveis na net. Para facilitar o acesso de novos leitores às suas publicações, Cavalcanti disponibilizou todos os seus livros numa versão on line.

Tanto nos blogs como nos vídeos e redes sociais, uma verdade parece se consolidar na web: as iniciativas de caráter institucional não são tão bem sucedidas quanto aquelas movidas por ações individuais. De acordo com o escritor Valter Luís de Avellar, autor do livro Internet e espiritualidade – O despertar através das mensagens de e-mail, os temas que despertam menos interesse nas caixas de postagem dos internautas são justamente as de conteúdo religioso, apreciadas apenas por 7,2% das pessoas que entrevistou. Muitos sites de igrejas, lançados com alarde, estão estáticos na internet, como um templo vazio. Para Uziel Bezerra, pastor batista, as igrejas precisam lançar mais conteúdos na rede, valorizando os estudos bíblicos de qualidade e a transmissão ao vivo dos cultos. Fazendo uma comparação com o mundo de antes da internet, Uziel lembra que, hoje, o primeiro lugar onde as pessoas vão buscar informação é no Google. “Em outros tempos, em caso de dúvida, se perguntava a um professor ou líder espiritual. Hoje, a pessoa simplesmente entra na internet e pesquisa. Ainda não temos um banco de dados eficaz, apesar de haver muita coisa  sobre questões bíblicas ou doutrinárias”, aponta .

Entre as suas atividades ministeriais diárias, o pastor Uziel separa ao menos uma hora por dia para realizar aconselhamentos pela internet. No passado, muitas igrejas investiram num formato parecido, mas através do telefone, que tinha um custo elevado. “A internet se transformou naquilo que alguns teóricos chamam de aldeia global. Dentro do conceito de interatividade, temos uma quantidade enorme de pessoas on line, em busca de desenvolver relacionamentos”, comenta. “Jesus ministraria a essas pessoas. Então, invisto tempo para aconselhar e orientar pessoas através de chats ou do Twitter. Essa é uma área ainda carente na internet”, aponta.

 

QUALIFICAÇÃO

Outra área das modernas tecnologias de comunicação que vem conquistando adeptos entre os evangélicos são as radiowebs. Além do baixo custo, esse tipo de mídia tem a vantagem da praticidade. Segundo o diretor da Gospel Rádio Web, Emanuel Farias, não é possível mensurar a quantidade dessas emissoras evangélicas on line, que crescem a cada dia pela facilidade de criá-las. Só na lista do portal Rádios, que abriga milhares de canais de TVs e rádios que estão na rede, há nada menos que 818 radiowebs na categoria “gospel/evangélicas”. “Qualquer pessoa com um bom computador noções mínimas de áudio e internet consegue fazer uma excelente transmissão”, comenta. Outra vantagem desse tipo de mídia é a interatividade. “Existem web rádios que fazem transmissão on demand, ou seja, através de áudio gravado que fica à disposição no site”, diz o especialista.

Em um mundo onde barreiras religiosas continuam sendo erguidas, dificultando a livre pregação da Palavra de Deus a quem queira ouvi-la, mídias como essa, que podem ser acessadas mesmo em um esconderijo, são mais que bem vindas. “Uma das muitas missões das radiowebs é simplesmente fazer com que o Evangelho seja divulgado. As igrejas poderiam fazer com que a visitação e o conhecimento das rádios aumentassem”, defende. Para isso, emenda, bastaria que se integrassem mais ao mundo virtual. O diretor da Gospel Rádio Web entende que a atuação dessas micro-emissoras poderia ser potencializado com o reconhecimento das igrejas e a integração das instituições religiosas, “inclusive para a qualificação da programação”. No entender do cientista da computação Thiago Ferreira, tal investimento da Igreja no mundo virtual já e faz mais do que necessário. Crente batista, ele defende a excelência também nessa parte de obra de Deus: “Como qualquer outro serviço, para funcionar de fato, é preciso que se faça bem feito e que os conteúdos sejam atualizados com frequência”. Mais do que outras revoluções, a digital requer agilidade de seus protagonistas – ainda mais porque, nesta seara virtual, os ceifeiros podem ser muitos. 

 

 

Seara virtual

 

  • O Brasil é o país com o maior número de conexões à internet
  • Quase 75 milhões de brasileiros são internautas
  • 63% dos internautas brasileiros têm idades entre 15 e 35 anos
  • No Brasil, existem entre 20 mil e 30 mil blogueiros evangélicos
  • A União de Blogueiros Evangélicos tem cerca de 15 mil filiados

 

Fontes: Ibope, F/Nazca e Quest Inteligência de Mercado

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Mon, 12 Mar 2012 11:58:43 +0000 Mon, 12 Mar 2012 11:58:43 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=846
Dupla cidadania

Um pastoreio ou ação pastoral ampla, profunda e prática deve contemplar duas realidades que vivemos: a realidade da terra e a do céu, que cremos e aguardamos. Somos cidadãos em nosso país, e igualmente de outra pátria que nos aguarda na volta gloriosa de Jesus Cristo, quando será concluída definitivamente a implantação de seu Reino.

O Deus Eterno que colocou a eternidade dentro dos seres humanos confiou-nos responsabilidades e privilégios nestas duas perspectivas. Fomos criados a fim de vivermos para a sua glória e desfrutarmos de sua presença em todas as dimensões e realidades da vida, humana, espelhando em tudo o que somos e fazemos nossa comunhão com Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Isso já é suficiente para a jornada de uma vida toda, onde procuramos dar sentido para o que somos e fazemos deixando ou não marcas, influência e legado.

Aqui está um projeto fascinante para nossa existência: vivermos como seres humanos neste mundo expressando a cultura, os valores e propósitos revelados a nós no ensino e vida de Jesus Cristo, Deus e homem. Enfrentar os desafios da vida humana, com tantas solicitações pessoais, profissionais e comunitárias, no contexto religioso ou não, certamente pede de nós consciência, sabedoria e discernimento – só assim seremos capazes de discernir o que é de fato importante e essencial para nossa existência.

Uma ação pastoral abrangente fará de nós cidadãos mais dignos e maduros com nossa dupla cidadania. Ela fará de nós pessoas mais íntegras e integrais, mais presentes, que interagem de forma mais acertada e não desperdiçam as oportunidades que temos de nos tornarmos mais parecidos com Jesus. Não podemos negar nossa humanidade, com toda sua limitação e finitude. Tampouco podemos fugir de nossa inclinação a fazer aquilo que não agrada a Deus nem traz glória ao seu nome, e que somente nos agrada e dá prazer. Contudo, Deus e o mundo esperam de nós uma vida vivida de forma doadora e responsável – uma existência na qual ações de amor e obras de compaixão sejam a regra.

Temos, como cristãos, que viver aqui na terra como cidadãos do céu, isto é, de maneira digna do Evangelho que abraçamos, cremos e professamos, assim como Paulo recomendou à igreja de Filipos. Os crentes filipenses, embora fossem cidadãos com responsabilidades, privilégios e deveres diante do Império Romano, foram pessoas que se identificaram com Cristo, reconhecendo-o como Senhor e Salvador – e que sofriam por causa do Evangelho e de sua identificação com ele.

Pastores, mais do que outros, precisam ter e construir uma ação pastoral adequada. Eles precisam se esforçar para conhecer, amar e manejar de maneira sábia a Palavra da verdade, trazendo encorajamento, ensino, conteúdo reflexivo e prático que ajude as pessoas que fazem parte do rebanho do Senhor em seus ajuntamentos locais a enfrentarem os desafios do mundo com dignidade e consciência. Que o façam acolhendo, orientando e respondendo com direções seguras diante da simplicidade e complexidade das realidades que vivemos. E que, humildemente, busquem ajuda quando se sentirem sem recursos ou conhecimento, já que não sabemos ou podemos tudo.

Uma pastoral adequada contempla crianças, adolescentes, jovens, casais, descasados, solteiros adultos, famílias e idosos em seus clamores, anseios e desafios. Uma pastoral com um olho na terra e outro no céu faz com que tenhamos cada vez mais vida em abundância e em muitas perspectivas que trarão alegria e realização. Portanto, pastores não devem se acomodar, aprisionando-se somente nas solicitações de agenda eclesiástica interna de suas comunidades ou na mesmice ou superficialidade de suas abordagens. Devem ter mente aberta, capacidade de articulação e diálogo, não fugindo das questões cotidianas e nem espiritualizando a fé e a ação pastoral numa sociedade que clama pela presença e intervenção daqueles que têm experimentado uma nova vida em Jesus.

Precisamos oferecer a este mundo nossa vocação e serviço, a fim de sermos canais de benção e graça de Jesus. Se aqui vivermos como pessoas transformadas pela ação do Espírito e pela presença de Jesus, poderemos ajudar a atender tantos clamores, dores e sofrimentos, trazendo um pouco da realidade e da esperança do céu àqueles que estão em lágrimas e sofrimento. Assim, os sinais de morte desaparecerão pela presença do autor da vida. Na verdade, o céu já começou para aqueles que acolheram em seus corações o Deus eterno e já estão vivendo esta perspectiva de eternidade andando em sua presença.

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Mon, 12 Mar 2012 11:43:28 +0000 Mon, 12 Mar 2012 11:43:28 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=845
Ideias são como sementes ? Vida comunitária

Comecemos pelo óbvio: uma das mais poderosas ferramentas do nosso tempo são as redes sociais. Através do Facebook, pessoas desconhecidas se conectam, amigos de outros tempos se reencontram, imagens e perfis são construídos ou destruídos em questão de alguns toques. Seu poder se estende para além da mera conexão entre pessoas: a mobilização virtual já se mostrou eficaz, inclusive, para ajudar a derrubar governos ditatoriais, como se viu recentemente na chamada Primavera Árabe. A força dessas redes está justamente no fato de que elas criam comunidades – e, quando as pessoas experimentam o senso de comunidade, por mais frágil que seja, aí há um incrível poder.

Viver em comunidade foi uma das mais poderosas ideias que influenciaram gerações de cristãos. Especialmente nos primeiros séculos, a comunidade tinha um lugar central. Havia, por exemplo, as comunidades dos desertos. Homens e mulheres migraram para as regiões desérticas em busca de uma relação mais profunda com Deus, entendendo que a vida na cidade estava condenada à superficialidade. Paradoxalmente, eles se isolaram para viver juntos. Então, floresceram comunidades poderosíssimas do ponto de vista espiritual. Ali, as relações não eram baseadas em poder ou dominação, mas em serviço a Deus e uns aos outros. As portas estavam abertas para todos, mas não era fácil entrar: era preciso que cada interessado provasse um real interesse pelo pertencimento. Desejos superficiais ou impulsos passageiros não eram suficientes, já que a vida comunitária exigia humildade, submissão, disciplina e, sobretudo, estabilidade. Não se rompiam os laços na primeira desavença, e a perseverança os levava a continuar caminhando juntos, apesar dos obstáculos relacionais.

Nas comunidades do deserto, os vínculos eram mais importantes do que número. A qualidade dos relacionamentos era uma marca fundamental daquela maneira de existir. A maior força daqueles grupos estava no fato de que as pessoas aderiam a elas por causa de um ideal. Novos membros somente eram aceitos após demonstrar resoluto compromisso em, junto com outros, construir o que se sonhava. Mas qual era esse ideal? Eles desejavam que a comunidade terrestre pudesse ser uma antecipação da comunidade celestial. Queriam relacionamentos, um modo de viver  do qual se pudesse dizer “assim na terra, como no céu”. Utopia? Talvez; mas a lição desses sonhadores do deserto é que o poder de uma comunidade está no seu ideal e na sua capacidade de atrair pessoas seduzidas por realizá-lo. A preocupação não era com a atração de novos adeptos, mas com a certeza de que quem entrasse não queria servir-se da comunidade, mas sim, construí-la à luz do sonho que dentro dela se carregava.

Naquele contexto, as relações comunitárias eram profundamente transformadoras. Mudanças no caráter, nos valores e até  no jeito de falar eram consequência natural daquele modo de vida. Quanto mais alguém ia se aprofundando nos relacionamentos e nas dinâmicas comunitárias, mais se ia sendo moldado, deixando de ser um “eu” isolado, obsessivamente preocupado em satisfazer-se, para tornar-se parte de um todo, no qual os interesses pessoais eram atingidos pela construção do bem comum. O resultado final é que cada pessoa se via parte de um todo, comungando de um ideal comum.

Quem é capaz de negar que comunidades com essas características podem mudar o mundo? Quem não gostaria de fazer parte de uma experiência comunitária assim? Não terá sido este tipo de comunidade que Jesus tinha em mente quando disse que as portas do inferno não seriam capazes de conter o poder de sua Igreja? Não seriam comunidades assim o grande antídoto divino para curar nosso essencial pecado humano de viver somente para nós mesmos? E não é o Deus cristão essencialmente relacional, vivendo uma misteriosa comunidade eterna na qual Pai, Filho e Espirito Santo vivem em inquebrável harmonia?

Comunidades alicerçadas neste Deus relacional são capazes de iluminar este mundo tão carente de luz. Sim, viver em comunidade é uma poderosa ideia que somente poderia ter sido gestada no coração e na mente de um Deus cuja essência é comunitária. Aqueles que ousarem despir-se de si mesmo e se revestirem de vestes comunitárias, como fizeram alguns dos nossos antepassados cristãos, verão o poder transformador que emerge de um grupo embalado por um maravilhoso ideal.

 

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Mon, 12 Mar 2012 11:34:51 +0000 Mon, 12 Mar 2012 11:34:51 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=844
Remorso ou arrependimento?

Remorso e arrependimento são constantemente confundidos. Mas, como diferenciar um do outro? E como reconhecer aquele que nos dói mais? Tais questionamentos me foram apresentados por uma pessoa que estava sofrendo muito por ter praticado atos reprováveis no meio religioso em que vivia. Não sabia o que dizer na hora, mas assumi o compromisso de pensar a respeito. Com o assunto na mente, foi impossível deixar de lembrar o que ocorreu com Pedro e Judas Iscariotes, dois discípulos de Cristo mencionados nos evangelhos. Os dois, cada um ao seu modo, traíram seu Mestre – e tiveram reações totalmente diferentes diante das consequências do que fizeram.

É importante lembrar que há muitos arrependimentos que giram apenas em torno do sentimento ruim que nos acomete quando alguém que amamos ficou magoado conosco. Então, nos “arrependemos” apenas para ficar bem com o ofendido. Não há nenhum convencimento intrínseco de que aquele comportamento não devia ter acontecido – o que existe é apenas um mal estar pelo afastamento da pessoa ferida. E o lamento, assim como o pedido de desculpas ou perdão, é apenas a tentativa de reatar um relacionamento interrompido. Esse tipo de atitude não é nem arrependimento e nem remorso: é só um jeito de tentar manter um relacionamento a qualquer custo.

Falo aqui em relação ao arrependimento e remorso que são marcados pelo sofrimento horroroso e intenso. O mundo fica pequeno para o tamanho de tal angústia; não se tem para onde ir e, muito menos, como fugir. O que diferencia um do outro não é a quantidade de dor – nas duas situações, há o lamento e o reconhecimento de que o ato praticado não deveria ter acontecido. A diferença principal é a forma como se lida com a culpa oriunda do mal praticado. Neste sentido, Judas Iscariotes e Pedro nos ajudam muito.

Diante da condenação de Jesus, Judas reconheceu que traiu um inocente. Ato contínuo, ele resolve devolver às autoridades o dinheiro recebido como pagamento por ter levado os guardas até Cristo. Contudo, as trinta moedas de prata, consideradas preço de sangue, não foram aceitas de volta. Então, o traidor atira o dinheiro contra os pagantes e, desesperadamente, coloca fim à sua angústia de viver com o peso de ter feito o que não devia tirando a própria vida. Ele quis reparar seu erro, primeiramente, sofrendo o prejuízo pelo dinheiro devolvido; depois, tentou pagar com os próprios recursos pelo mal causado. Não conseguiu, simplesmente porque não havia como pagar pelo dano que causara.

Pedro, por sua vez, também sofreu pelo que fez. E muito. Ele chorou de maneira amarga quando seu olhar se encontrou com os olhos amorosos de Cristo. Naquela madrugada em Jerusalém, é possível que Pedro também tenha desejado não estar vivo para fazer o que fez. Afinal, era melhor morrer do que cometer o mal contra aquele que mais o tinha amado. Mas não há, no comportamento de Pedro, nada que indique que ele tenha tentado pagar pelo mal que havia feito. O discípulo faltoso devia saber que nada neste mundo, humanamente falando, poderia apagar as consequências de sua ofensa.

Contudo, Pedro não dá cabo da própria vida. E resolve voltar às redes de pesca, sem saber que logo haveria um novo encontro com Jesus. Ali, na praia, Pedro reconhece que Cristo é o Todo-poderoso que sabe todas as coisas e que ele, o discípulo regenerado, pouco tem a oferecer. Nestas condições, o Filho de Deus o aceita e delega a ele a missão mais importante na história do cristianismo: a continuidade da fé cristã e o cuidado para com os fiéis.

Há erros irreparáveis que cometemos na vida. Todos estamos sujeitos a eles. E há coisas que praticamos, das quais nos arrependemos, que não podem ser refeitas. Sobra, então, o peso dos danos – os que infligimos aos outros e os que causamos a nós mesmos. Remorso é a condenação de ficar remoendo o preço impossível de pagar. Ninguém suporta viver assim sem causar danos para si mesmo. Mas uma das coisas mais significativas e libertadoras da fé cristã é a possibilidade que temos de jogar sobre a cruz erguida no Calvário todo e qualquer peso dos erros impossíveis de serem reparados. Arrependimento é o lamento mental, físico e emocional de que tal ato não deveria ter sido praticado; é o sofrimento de todo o ser, de tal forma que não há mais o desejo de que tal comportamento volte a acontecer. E o reconhecimento de que, no sacrifício vicário de Cristo na cruz, o preço foi pago e o saldo da dívida, zerado. A única energia gasta é para a possibilidade de uma mudança radical.

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Mon, 12 Mar 2012 9:34:08 +0000 Mon, 12 Mar 2012 9:34:08 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=843
Entrevista exclusiva com Caio Fábio

Por Danilo Fernandes

 

Depois de vários anos sumido do noticiário nacional, o pastor Caio Fábio D’Araújo Filho voltou às manchetes no fim do ano passado. Réu na ação movida contra ele por conta do episódio conhecido como Dossiê Caimã – conjunto de documentos falsos que, pouco antes da eleição presidencial de 1998, acusava altas figuras do governo de ter contas secretas naquele paraíso fiscal –, Caio foi condenado por uma juíza federal a pouco mais de três anos de reclusão. Cabe recurso, e o pastor já avisou que vai até às últimas instâncias. “A juíza quer aparecer”, ataca, sustentando a mesma versão que conta desde o início do imbróglio: a de que foi envolvido inocentemente numa conspiração política. Essa parte de seu passado, bem como muitas outras, já não são conhecidas pelas novas gerações de crentes. Contudo, os evangélicos mais maduros sabem que Caio foi a mais destacada liderança evangélica já surgida no país, cuja visibilidade, catapultada por uma ação ministerial intensa – como a criação da organização Visão Nacional de Evangelização, a Vinde, e da Fábrica de Esperança, megaprojeto social que atendeu centenas de milhares de carentes num conjunto de favelas do Rio –, marcou época entre os anos 1970 e 90.

Hoje, Caio olha para esse passado com serenidade. Ele diz que não repudia nada do que fez, mas que não quer mais saber de ser a figura pública, aclamada e requisitada de outrora. “Esse tempo acabou definitivamente para mim. Minha alma não tolera mais a possibilidade dessa vida itinerante”, diz, em sua casa em Brasília. Cercado de árvores, jardins e recantos, é dali que ele grava os programas que exibe pela internet, parte importante das atividades do Caminho da Graça, ministério que hoje capitaneia. Tida como uma igreja de perfil alternativo, o grupo reúne-se em várias cidades brasileiras e, segundo Caio Fábio, procura restaurar o sentido da comunhão cristã. “Ele é um movimento conduzido pela Palavra e pelo Espírito Santo. Queremos que  invada a massa, abranja tudo e se torne incontrolável como o vento que sopra onde quer”, diz, com a retórica privilegiada que conquistou milhões de admiradores e fez sucesso em mais de 100 livros publicados. De certas experiências do passado, ele não esconde a dor – como a separação de sua primeira mulher, Alda Fernandes, com quem teve quatro filhos, e a trágica morte de Lukkas, o terceiro deles.  Contudo, embora muito criticado e contestado ao longo desses anos todos, ele assegura, “diante de Deus”, que não sente mágoa de ninguém. Aos 57 anos de idade, casado com Adriana Ribeiro, Caio Fábio D’Araújo Filho se diz em paz. “Eu sou livre. Sou nascido do Evangelho, nascido de Jesus. Hoje, sirvo ao Senhor e não preciso perder o meu ser, a minha saúde, a minha paz, o meu convívio familiar. Isso é graça de Deus para mim!”

 

CRISTIANISMO HOJE – Recentemente, o senhor voltou ao noticiário com a notícia de sua condenação no processo que investiga o episódio do Dossiê Caimã. Como ficou esse processo?

CAIO FÁBIO D’ARAÚJO FILHO – Meu advogado entrou com recurso e eu ganhei. Agora, deve seguir para outra instância. Esse processo é uma loucura inominável. Até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que seria o maior prejudicado se a história fosse verdadeira, já veio a público me isentar de qualquer culpa.

 

Se sua inocência é tão óbvia como diz, por que um assunto praticamente esquecido pela opinião pública foi trazido novamente à tona?

Por iniciativa de uma juíza federal que gosta de aparecer. Como o episódio foi um fato histórico que envolveu até a Presidência da República, ela quis ser a mulher que decretou a prisão do indivíduo que seria o boi de piranha daquele negócio todo. Um grupo de advogados amigos de São Paulo queria até entrar com uma representação contra ela perante os conselhos de Magistratura, porque acharam que ela passou dos limites. Mas o advogado que me representa nos autos não deixou.

 

A quem interessaria uma condenação sua?

Ah, interessaria a muitos religiosos. O próprio pessoal da imprensa que me ligou disse que isso é uma coisa surreal, que aquela mulher é doida. Ninguém acredita em nada daquilo. Só a Folha de São Paulo é que deu com um destaque maior por uma razão política que eu não vou dizer aqui. E a TV Record [ligada à Igreja Universal do Reino de Deus], por razões óbvias. Estou junto como réu ao lado de Paulo Maluf e Lafayette Coutinho. No entanto, só eu fui condenado! Mas olha, se, por algum motivo totalmente inexplicável, esse negócio chegar ao Superior Tribunal de Justiça, será liquidado lá. E, se por alguma insanidade passar e for ao Supremo, vai morrer na praia.

 

O senhor trabalha com a hipótese de uma condenação definitiva?

Se, por alguma conjunção cósmica totalmente irracional, eu for mesmo condenado a prestar serviço comunitário ou fazer ação social, eu vou dar um grande “aleluia”, porque estarei sendo condenado a ser eu mesmo, a fazer o que sempre fiz esses anos todos, por minha total iniciativa.

 

O senhor concebeu e liderou um dos maiores projetos de cunho social de iniciativa de evangélicos já feitos neste país, a Fábrica da Esperança, considerado o maior do gênero na América Latina. Com esta credencial, como o senhor avalia a relativamente pequena atuação da Igreja brasileira na área social, ainda mais evidenciada quando consideramos as altíssimas somas de dinheiro arrecadadas pelos grandes ministérios e denominações?

Não existe nenhum grupo mais ególatra dentre todos os movimentos religiosos planetários do que o movimento evangélico. Isso por causa da semente dele – a semente é má, é de divisão. A semente original, de protesto contra a Igreja Católica, transformou-se numa semente de protesto existencial contra tudo. Essa divisão criou a ênfase no dogma doutrinário. Isso divide, qualquer que seja o desencontro, em qualquer nível na escala de valores. Falta tolerância naquilo que não tem significado para a salvação, no que não altera o DNA do Evangelho. Esse tipo de tolerância no olhar nunca existiu. O que se instituiu foi a prevalência do existencialismo espiritual, e esse não lida com as categorias objetivas de valor. E logo o chamado movimento protestante virou esse guarda-chuva evangélico, sob o qual cabem todas as coisas. Quando é que pode haver unidade e serviço ao próximo se, no meio evangélico a unção para nada serve senão para erigir egos? A unção do Espírito Santo deve redundar no amor, na compaixão, na misericórdia, no serviço – mas a “unção” que vemos aí só tem poder para criar lúciferes com purpurina na cara, que atuam em palcos com luzes. 

 

Em função deste e de vários outros projetos e iniciativas, o senhor levantou muito mais recursos do que o de diversos líderes de hoje, que estão até comprando aviões particulares.  À época, o senhor teve o seu?

Nunca tive avião ou helicóptero. Faz parte da minha filosofia não adquirir nada. Nem esta casa onde vivo eu comprei, ela me foi alugada a um valor simbólico por três senhoras amigas. Eu nunca comprei coisa nenhuma, nunca acreditei em compra de nada. O Caminho da Graça nunca vai comprar nada. Creio que imobilizar dinheiro do povo de Deus com patrimônio físico é pecado. Quem diz que a nossa pátria está nos céus e faz aquisições poderosas ou erige templos salomônicos está pecando contra o espírito do Evangelho. Tudo o que eu construí e mantive era alugado. Passei 25 anos declarando que não tinha o menor compromisso com a manutenção de coisa alguma que virasse um fim em si mesmo. Quando você é dono de propriedades, você acaba vivendo para fazer a manutenção de tudo e as coisas perdem a finalidade.

 

E o senhor vive de quê?

Sempre vivi exclusivamente do ministério. Todos os direitos autorais dos meus livros e a renda obtida com nossas atividades no passado – TV, rádio, revista, editora – era voltada para a atividade missionária, social, evangelizadora e de treinamento. Era tudo reinvestido naquilo que fazíamos. E continua sendo assim hoje.

 

Quem o ouve falar percebe que o senhor faz questão de traçar uma linha divisória entre o que é hoje e o que fez, em especial em relação ao seu passado institucional, quando era uma figura pública dentro e fora da Igreja. Há algo que o senhor repudia em seu passado?

Não. Eu nunca rechacei meu passado. Só não faria de novo. Naquela época, contudo, foi necessário. Só de uma coisa me arrependo no meu passado institucional: ter aceitado a imposição de ter sido feito presidente da Associação Evangélica Brasileira [AEVB], pela qual eu mesmo trabalhei muito para ver criada. Eu não queria a função, mas fui eleito por aclamação. Praticamente me obrigaram a aceitar, porque a entidade surgiu com o patrocínio da Vinde. Noventa por cento da AEVB estavam ligados aos ministérios que eu dirigia. Eu não queria e nem precisava presidir a AEVB. Pelo contrário – eu é que dei mídia para ela.

 

Mas a AEVB não cumpriu um papel importante na época? Afinal, ela esteve à frente de movimentos marcantes dos anos 90, como o Celebrando a Deus como Planeta Terra, o Rio Desarme-se e o Reage Rio, entre outras mobilizações que contaram com o apoio dos evangélicos.

Quando se criou a AEVB, a gente já havia perdido tempo demais discutindo o sexo dos anjos. Já estávamos correndo no vácuo do prejuízo. Esperamos muitos anos num processo lento, de muita conversa infrutífera. A AEVB só surgiu em 1991, depois que o [bispo Edir] Macedo já havia começado a dar as cartas do neopentecostalismo brasileiro. A AEVB foi criada com apoio desse pessoal que agora fundou a Aliança Cristã Evangélica Brasileira e de outros, mas ninguém botava dinheiro, ninguém se mobilizava para fazer nada.

 

O senhor foi convidado a participar da Aliança?

Não fui convidado, e mesmo se fosse, não iria, porque não acredito mais nisso. Todos esses irmãos queridos que estão lá sabem que eu sempre quis ser livre para dizer o que eu queria.  Esse tipo de iniciativa tinha que ser criada bem antes, lá no início dos anos 1980, quando havia muita gente séria, respeitável, de corações generosos. Isso tinha de ser criado logo depois do Congresso Brasileiro de Evangelização, em 1983, que para mim foi o maior evento representativo da história da Igreja brasileira. Ali ocorreu a grande oportunidade de unidade. As almas ainda estavam ingênuas, puras, sinceras. A teologia da prosperidade não existia por aqui, o que prevalecia era a teologia da missão integral. Havia uma quantidade enorme de pastores piedosos e desejosos de ver o melhor de Deus acontecer neste país. Creio que, àquela altura, ainda dava tempo de a Igreja ter um papel de relevância e significado, Ainda dava para virar as coisas e não perder os significados do termo evangélico.

 

A sua separação foi um acontecimento público, que envolveu adultério. Naquela época, isso ganhou enorme peso perante a Igreja. No entanto, já àquele tempo diversas denominações já ordenavam pastores divorciados e encaravam a questão de forma liberal. Também são muitos os exemplos de pastores famosos – alguns, líderes de denominações – que se divorciaram em condições semelhantes às suas, mas a repercussão em nada se aproximou do tratamento que lhe foi concedido. Por que o seu caso, até hoje, suscita tanto escândalo? O senhor se considera perseguido?

Eu daria três razões para este tratamento especial e a grande comoção que o episódio causou. Em primeiro lugar, a minha situação para essa moçada toda foi insuportável. Ministerialmente, eu funcionava como uma espécie de foice, rodando em cima de cabeças conceituais. Toda vez que aparecia um maluco – e eu nunca precisei nominar os malucos, apenas expunha seus erros e dizia que o Evangelho era de outro jeito –, essa foice cortava logo aquela cabeça, o cara virava herege. Por isso, todo mundo tinha medo de que minha opinião conceitual colocasse alguém em situação difícil. Eu tenho certeza absoluta da quantidade enorme de gente que torcia por uma fragilidade de minha parte justamente por causa desse papel que eu exercia. E esse não foi um papel que eu pleiteasse ou buscasse; ele aconteceu espontaneamente. Foi Deus que fez isso por sua graça, eu só estava pregando o Evangelho, que, aliás, é o que eu sempre fiz.

 

Então, o senhor acredita que parte desta liderança que ai está não teria o espaço que tem se não fosse a sua saída do cenário? Seu espólio foi negociado?

Com certeza. Não preciso falar nada. Basta ver até 1998 quem era quem e o que aconteceu de 2000 em diante. Quer ver uma coisa? Logo depois do que aconteceu, diante daquela comoção toda sobre o que tinha acontecido comigo, houve uma reunião de 300 pastores em São Paulo especificamente para tratar sobre quem ia ficar com qual parte do meu despojo, para saber quais eram os espaços que eu havia deixado abertos e quem deveria ocupá-los. E foram milhares que também fizeram isso. Não quero nem falar de traição, porque no meu coração já estão todos perdoados, mas se eu abrisse a boca ninguém ficava em pé.  Esta foi uma razão. Em que pese o fato de que eu cometi um ato pecaminoso de traição e infidelidade, isso está longe de ser a causa principal da grande comoção. Sabe qual foi a causa? Eu ter tomado a iniciativa de contar tudo, ou seja, por minha vontade expor tudo em verdade, sem que qualquer coisa tivesse sido descoberta por ninguém. E eu que ouvia a confissão de tantos deles e sabia de suas fraquezas, das promiscuidades… E, depois, estes mesmos iam à TV bater em mim confiando na minha integridade, pois sabiam que eu não os exporia.

E a terceira razão foi que, naquele momento, eu aproveitei a oportunidade e pulei fora do barco. Este foi o elemento mais doído de todos. A Igreja Presbiteriana me propôs uma discipina como condição para minha restauração. Eu respondi que não estava pleiteando nada, e que estava me desligando da denominação unilateralmente. Eu não queria mais ser parte daquilo. Escrevi três cartas e eles não aceitaram nenhuma.  Pensei: “Meu Deus, isso aí não é a máfia, da qual o camarada só sai morto”! Depois me propuseram dar o tempo que eu julgasse necessário e que, depois, se eu quisesse voltar, seria restaurado e estava tudo certo. Mas eu disse que não queria.

 

O que passava pela sua cabeça naquele momento. O que o senhor desejava? Para onde queria ir?

Eu queria vir para cá! Queria voltar aos meus 18 anos... Eu nunca quis ser pastor ordenado. Eu sabia quem eu era e que Deus tinha me ungido. Sabia que isso tinha vindo do céu, e que não dependia de ninguém. Foi a Igreja Presbiteriana que disse que não era possível que eu, aos 19 anos, em Manaus,  fosse considerado pastor pela cidade inteira,  pregasse a Palavra sem ser ordenado pastor e sem aceitar ir para ao seminário.

 

Então a questão crucial foi a rejeição?

Sim. Eles agiram passionalmente. Era como se dissessem: “Nós amávamos esse cara e ele decidiu não ser mais parte do nosso grupo”. E, conquanto eu estivesse fazendo aquilo sem que, na minha mente, quisesse ofender nenhum daqueles irmãos, o que eu não queria era, depois do acontecido, ter de me curvar a nenhum tipo de restauração humana, mentirosa, hipócrita e plástica que queriam me oferecer. Eu sabia que o único a me restaurar era o Senhor. Eu não aceitaria nada que não viesse daquele que me ungiu e sabendo que entrar naquele esquema era vender a minha alma. Então, eles aproveitaram essa minha atitude para vender ao povão a ideia de que eu estava rebelado contra a comunhão dos santos e o amor dos irmãos.

 

Ao longo dos anos, foram construídos certos mitos a seu respeito e que o rotulam como extremamente liberal e até antibíblico. Um deles é de que o senhor, devido ao que lhe aconteceu, seria um incentivador de divórcios, em especial de pastores. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Isso é uma suposição absurda. Já haviam acontecido milhares de separações de pastores antes da minha. E muita dessa gente vinha me contar os dramas conjugais e chorar as mazelas comigo. Então, é hipocrisia dizer que o que me aconteceu é que abriu as portas para que outros pastores adulterassem ou largassem da mulher. Essa percepção a meu respeito é suscitada pelo diabo na cabeça de muita gente doida. Eu nunca defendi o divórcio. Defendo que continuem casados aqueles que se amam, mas que todos aqueles que se fazem mal, que se machucam, que se ferem e se odeiam, não deveriam estar casados, pelo bem de suas almas. Sempre aconselhei todo mundo a não adulterar, a não trair a mulher. Quando cheguei aqui em Brasília, no meu primeiro ano o que eu mais fiz foi atender pastores e mulheres de pastores que queriam se divorciar e vinham me pedir aconselhamento. Gente de tudo quanto é igreja – batistas, assembleianos, presbiterianos, pentecostais. Na medida do possível, ajudei esse pessoal todo a não se divorciar. Eu dizia a quem me procurava com casos extraconjugais: “Sai dessa, você vai se estrepar com essa amante”. O que Deus uniu, que o homem não separe; e o que Deus não uniu, que não se ajunte, porque vira uma desgraça. O que me aconteceu foi, isso sim, um ato pecaminoso, de traição e de infidelidade. Um pecado diante de Deus e perante a mãe dos meus filhos. Mas o que me aconteceu não teria derrubado nada que já não estivesse demolido. É ridículo dizer que meu caso serviu de legitimação para os atos de quem quer que seja.

 

Por falar nisso, como é sua relação com Alda Fernandes, sua ex-mulher?

Ela é minha amiga. Passamos o último Natal juntos. Estamos sempre com nossos filhos e netos.

 

Quando seu filho Lukkas morreu atropelado, em 2004, houve quem atribuísse a tragédia e um juízo de Deus sobre sua vida. O que o senhor sentiu na época e como lida hoje com as pessoas que o criticam?

Só tive coração para a dor e a saudade pela partida do meu filho. Nada do que soube que disseram teve poder de gerar qualquer coisa ruim em mim. O que senti naquele momento foi paz, e se todos os meus filhos morressem, a minha resposta seria a mesma. E tem mais uma coisa – não existe ninguém, nenhum ser humano, que eu não tenha perdoado. Digo isso diante do Deus vivo e dos principados e potestades malignas. Meu coração nunca dormiu com ira em relação a ninguém, eu não tenho ódio nenhum para contar. Não tenho inimizades contra pessoas. Por outro lado, tenho opiniões a dar sobre ideias e conceitos equivocados de quem quer que seja. Não é por causa do fato de eu não ter inimizade pessoal por um indivíduo que vou deixar que a vandalização do Evangelho aconteça sem que eu me una a Paulo na luta comum da defesa do Evangelho, como todo aquele que carrega o temor de Jesus no coração.

 

Esse seu discurso costuma ser extremamente crítico em relação ao que chama de “igrejas institucionalizadas” e “sistema religioso”. Na sua opinião, as igrejas não têm nada de bom?

Mas é claro que têm coisas boas! Elas têm gente boa, e gente é o que existe de melhor em qualquer lugar. Ministério, para mim, é gente, só é bom se for feito por gente e para gente. Está cheio de gente boa de Deus nas igrejas. Mesmo quando há um pastor paspalhão lá na frente, os bancos estão repletos de gente boa, que sente até pena daquele indivíduo lá na frente, que faz negócios para todos os lados e com quem apareça. Tem gente que suporta o púlpito muito mais para não perder os relacionamentos de comunhão e o convívio de anos com os irmãos. Eles sabem que aqueles caras lá na frente vão passar, as modas vão passar, mas eles vão continuar ali. Existe gente maravilhosa nos ministérios. Veja aquele pessoal da Juvep [Juventude Evangélica da Paraíba, entidade que atua de maneira missionária no sertão nordestino], por exemplo. Eles perseveram há anos na mesma purezinha de alma, na mesma ideia de serviço ao próximo. Há também a Jocum [Jovens com uma Missão, movimento missionário internacional], com seus tantos braços de ação penetrados nos lugares mais distantes, em favelas, em comunidades miseráveis, em bolsões de carência no mundo todo.

 

O Caminho da Graça é uma espécie de reinvenção da igreja?

Não, ele é simplesmente a sequência de um caminho que eu sempre trilhei. O Caminho da Graça é a expressão de visibilidade de uma coisa subversiva que eu incito. Eu tento fazer com que o Caminho seja apenas, com muita leveza, um elemento de visibilidade mínima da possibilidade de uma comunhão cristã sem que uns mordam e devorem uns aos outros. Por isso, não tenho aquele desejo de fazê-lo crescer, ter expansão numérica simplesmente – quero que o que cresça seja essa coisa que ninguém nomeia, um movimento conduzido pela Palavra e pelo Espírito Santo que invade a massa, abranja tudo e se torne incontrolável como o vento que sopra onde quer.

 

O senhor diz que o Caminho da Graça é um movimento não institucionalizado, mas recentemente nomeou presbíteros e diáconos para sua sede em Brasília. Isso não vai acabar tornando o ministério como uma das igrejas que o senhor tanto critica?

Nós funcionamos baseados em dons, e não em hierarquias. Nas igrejas convencionais, o diácono é mais do que o membro e o presbítero é mais do que o diácono. Aqui no Caminho, essas funções expressam simplesmente dons de serviço. O presbítero, o mentor, não é um sujeito mais elevado na hierarquia, não tem poderes ou prerrogativas especiais. Ele é simplesmente o cara que surge pela observação dos outros: “Puxa, quanta sabedoria fulano tem recebido e manifestado”. Essas funções surgem por opiniões múltiplas, não existe reunião de concílio ou votação para escolher ninguém. E tem outra coisa: se, algum dia, lá na frente, o Caminho da Graça deixar de ser o que nasceu para ser, é a coisa mais simples do mundo – acaba tudo e começa outra vez. O problema do pessoal é que eles querem se eternizar. Querem que o grão de trigo dure para sempre, mas se o grão não morrer, não há fruto. Eu não quero perenizar nada. Eu só tenho o compromisso de servir à minha geração, não quero deixar nenhum legado, nenhum império. É preciso reconhecer que a vida é cíclica. Eu já acabei com muita coisa que tinha começado no curso da minha vida. E que ninguém duvide que, se eu tiver vida longa e alguma coisa que estou fazendo hoje se corromper lá na frente, eu mesmo vou lá e termino com tudo, não espero, não.

 

A manutenção do Caminho da Graça e dos ministérios a ele ligados é feita através de dízimos e ofertas?

A gente recolhe ofertas. A espontaneidade da dádiva tem que ser baseada no amor, na alegria de dar. Quem pode dar mais, dá mais; quem pode dar menos, dá menos; e quem não pode dar nada não dá nada, recebe. Paulo ensinou que é justo que aqueles que recebem bens daqueles que lhes ministram os galardoem e ajudem com bens. Mesmo com toda a capacidade que Jesus tinha de multiplicar pães e peixes e de transformar água em vinho, ele era sustentado pelas ofertas práticas e objetivas das mulheres que o serviam e de outras pessoas. O princípio espiritual da doação era operativo na vida e no ensino de Jesus e no Novo Testamento como um todo.

 

E quanto ao dízimo? Nesta ótica, ele seria antibíblico?

O que as igrejas ensinam é lei, é obrigatoriedade. A Igreja tornou-se uma espécie de agente substitutivo do antigo templo de Jerusalém, uma espécie de “receita federal” de Deus. É uma coletora de impostos. O dízimo é esse imposto, e ainda dizem que quem não pagar vai sofrer as desgraças descritas no capítulo 3 de Malaquias. Como a Igreja não ensina a obediência ao Evangelho como resultado do amor de Cristo constrangendo nosso coração, como Paulo ensina em II Coríntios 5, as pessoas não veem a questão da doação como algo inerente à generosidade.

 

Se um homossexual assumido quiser frequentar o Caminho nesta condição, como ele será tratado?

Nunca ninguém chegou no Caminho da Graça dizendo para mim que é gay praticante e que quer ficar ali. Mas não sou persecutório e nem homofóbico acerca de nenhum ser humano. Se ele quiser ficar, ouvirá o Evangelho e saberá que esse Evangelho pode criar um espaço de generosidade misericordiosa para ele ouvir a Palavra de Deus e crescer – mas nunca ouvirá uma única palavra de incentivo a qualquer relação sexual que não seja heterossexual.  Se eu fizesse isso, estaria estabelecendo um paradigma que não encontro nenhum precedente para estabelecer.

 

Logo, ainda que solicitado, o senhor não celebraria um casamento gay?

Eu não faço esse tipo de casamento, até porque a união estável entre homossexuais não é casamento, é uma relação societária, uma empresa limitada. O Estado tem o dever de defender essa relação no que se refere ao respeito à propriedade, aos bens. Se dois gays que construíram uma vida juntos, com aquisição de bens e tudo o mais, resolvem não mais viver em comum, que se divida o que têm, e cada um leva a sua parte. Isso é uma questão de Estado, não tem nada a ver com a Igreja. Mas não estimulo nenhum tipo de união estável, a não ser aquela estabelecida entre homem e mulher que se amem.

 

Sua maneira de falar e até as roupas que o senhor tem usado provocam muitos comentários. A esta altura da vida, o senhor sente-se livre para dizer e fazer o que quer?

Pelo amor de Deus, você não pode mais ser o que é? Eu me visto desse jeito porque gosto. Eu sou só um carinha que deseja viver. Quem não gosta do meu jeito é livre para viver da maneira que quiser. Eu sou livre como o Evangelho. Sou nascido do Evangelho, nascido de Jesus. Sou como o vento, nascido do Espírito Santo. Quem não suporta minhas declarações, minha sinceridade e a propriedade do que digo que vá dormir com esse barulho.

 

(Colaborou Carlos Fernandes)

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Mon, 12 Mar 2012 9:22:51 +0000 Mon, 12 Mar 2012 9:22:51 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=842
Vida simples como estilo

É improvável que qualquer dos leitores desta coluna venha a morrer de fome, esteja sem um teto sobre sua cabeça ou não possa sair à rua por absoluta falta do que vestir. Hoje, a nossa dificuldade tem a ver bem mais com a concepção do que seria uma vida simples do que com lamúrias pela falta do básico.

Pode parecer uma suposição bizarra, mas alguns cristãos conseguem afirmar o seu amor por Jesus Cristo mesmo quando atribulados, angustiados, perseguidos, ameaçados e até mesmo diante do cenário da morte. No entanto, quando a realidade é de escassez, o comportamento muda. Somos capazes de suportar adversidades, desde que estejamos devidamente alimentados, vestidos e com as contas pagas.

Jesus advertiu aos seus seguidores de que eles não deviam ficar ansiosos quanto ao que comeriam ou vestiriam, nem tampouco onde viveriam. Numa interpretação absolutamente livre, é como se o texto de Mateus 6.25-34. “Não estejam ansiosos por coisa alguma, inclusive em relação às suas necessidades básicas. Não se inquietem com o dia de amanhã”. Aos cristãos de Roma, o apóstolo Paulo nomeia os motivos alegados por alguns para reclamar do aparente descaso de Deus e, portanto, justificar seu afastamento do Senhor.

Fome, nudez e despejo aparecem como realidades possíveis para os seguidores de Jesus a partir do livro de Atos. Não há qualquer contradição com os quatro evangelhos; o fato é que muitos cristãos sofreram na pele a escassez por estarem envolvidos com os valores do Reino de Deus. Jesus foi claro ao afirmar que, caso seu Reino seja posto como prioridade, o restante nos será acrescentado. Contudo, a adesão aos valores do Reino passa, necessariamente, por uma vida simples. Sofremos muito numa sociedade fundamentada nas leis do consumo. Na atualidade, o supérfluo, se bem embrulhado, ganha apelo de básico. Como ficamos infelizes porque nossos hábitos sofisticados não são compatíveis com o nosso poder de compra! Como ficamos contrariados porque nossos valores nos impedem de fazer negócios inescrupulosos, mas rentáveis, num mercado de mãos e rosto invisíveis!

Não se trata de admitir que uma cabana de palha, um cantil de água e um pedaço de pão sejam o suficiente. Nem de culpar os afortunados que moram bem, mantém adegas com vinhos da melhor qualidade e comem pães recheados com as mais sofisticadas iguarias. Acontece que as nossas chamadas “necessidades materiais” nem sempre resistem a uma análise criteriosa da verdadeira necessidade que temos delas. Convém refletir: O que seria o básico dos recursos materiais dos quais precisamos? Que itens estamos planejando possuir? E, dentre estes, quantos são realmente necessários? Geralmente, quando pensamos dessa maneira, descobrimos que poderíamos viver muito bem sem aquelas coisas que achávamos que eram fundamentais só depois de as consumirmos.

De que maneira os nossos interesses se relacionam com o Reino de Deus? E se avaliássemos a lista do que consideramos nossas necessidades de acordo com os interesses de Cristo em nossa vida? Muito provavelmente, se olharmos nossa vida sob a perspectiva dos valores ensinados pelo Senhor, seremos capazes de fazer listas muito mais sensatas. Então, seremos capazes de reconhecer o básico e por ele darmos graças; seremos habilitados a planejar o futuro sem ansiedade; e, finalmente, seremos lúcidos o suficiente para nos desapegarmos do supérfluo.

A verdade é que a falta de algo não pode ser interpretado como ausência do amor de Deus por nós. Na dimensão do Reino sobre o qual falou Jesus e repercutiu o apóstolo Paulo, a ansiedade é visceralmente controlada quando aprendemos a viver para Deus e, portanto, descobrimos o outro. Aí, adotaremos a generosidade como estilo de vida e teremos o quintal sem cerca, a mangueira sem lacre de propriedade privada e a flor amarela na janela – aquela que, segundo Cecília Meireles, é regada não para ser vendida, mas para que viva e faça sorrir quem passa.

Na cultura do consumo, falar sobre desapego pode soar como heresia. Mas heresia social não chega a ser ofensiva a Deus. Portanto, tenha paz para viver uma vida simples numa sociedade que nos convida ao sofisticado, nos leva à insatisfação e nos subjuga pelo consumo. Bem-aventurados seremos se tivermos a capacidade de admitir a possibilidade de sermos como Paulo descreveu: “Entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo” (II Coríntios 6.10).

          

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Mon, 12 Mar 2012 8:54:36 +0000 Mon, 12 Mar 2012 8:54:36 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=841
Os lavadores de pés da Etiópia

O médico Larry Thomas participava de um almoço em Addis Abeba, capital da Etiópia, há cerca de 20 anos, na companhia de colegas americanos. Eles estavam no país africano para estudar uma terrível doença então recém-descoberta, chamada podoconiosis. Aqueles profissionais estavam se encontrando pela primeira vez. “Quando íamos começar a comer, perguntei, como que num impulso, se alguém se importaria se déssemos graças a Deus pelo alimento”, lembra Thomas, fundador da Tropical Health Alliance Foundation (em tradução livre, “Fundação Aliança para a Saúde Tropical”). Para sua surpresa, todos concordaram. Após a oração, o assunto da mesa foi fé e religião. “Começamos a falar de nossas crenças e logo percebemos que todos ali éramos cristãos assumidos”.

O fato não era simples coincidência. Desde que foi identificada pela primeira vez, há cerca de 35 anos, a podoconiosis tem atraído a atenção missionária de cristãos de todo o mundo. Uma grande rede de solidariedade se construiu, unindo profissionais de saúde, voluntários e empreendedores sociais católicos e evangélicos, unidos contra uma doença terrível e estigmatizante. A podoconiosis é simplesmente grotesca. Nos casos mais severos, é como se os pés das vítimas se transformassem em imensas massas de tecido apodrecidas. É como se os membros inferiores do doentes fossem tomados por uma espécie de musgo, ficando progressivamente deformados.e exalando um odor terrível. Um verdadeiro pesadelo. Mas um número considerável de pessoas – todos os envolvidos desde a descoberta da doença até as atuais pesquisas científicas – fazem parte desta luta. Dentre eles, estão um médico octogenário, algumas freiras e um bem-sucedido e jovem empresário do ramo de calçados. Com muita dificuldade e empenho, eles têm feito com que a doença, finalmente, comece a ganhar a atenção mundial.     

Estima-se que um milhão de etíopes sofram de podoconiosis, mas é possível que o número total de vítimas no continente chegue a quatro milhões. Nas áreas mais afetadas, uma em cada 20 pessoas desenvolve a doença. Uma única vila etíope, com dois mil moradores, tem pelo menos cem vítimas, permanentemente inválidas. Em algumas áreas do país, o número de vítimas do mal ultrapassa o de doentes de Aids. Apesar da prevalência de casos e da severidade do problema, a doença não havia sido identificada até 35 anos atrás. Os especialistas costumavam diagnosticar sintomas de elefantíase infecciosa, até que um médico cristão, chamado Ewart Price, percebeu que se tratava de outro problema. Munido de mapas geológicos, Price estabeleceu uma conexão entre os sintomas da doença e o solo vulcânico da Etiópia, avermelhado e rico em substâncias sulfurosas.

Numa região paupérrima, onde a maioria das pessoas caminham descalças, é fácil entender a relação entre o meio ambiente e a podoconiosis. Examinando amostras de tecido linfático das vítimas, o médico percebeu a presença de minúsculos cristais de silício. Deduziu, então, que o silício era absorvido pelos pés e acabava bloqueando os canais linfáticos, provocando inchaço e deformidades. Como ainda não existem estudos conclusivos, a dedução de Price continua a ser a melhor explicação para a origem do mal. A exposição àquele tipo de solo, aparentemente, é crucial para o desenvolvimento da podoconiosis, mas outros fatores, como a predisposição genética, também devem ser levados em conta.

Por um longo tempo, as descobertas de Ewart Price provocaram poucas reações no meio médico internacional. As primeiras respostas organizadas à questão da podoconiosis começaram há pouco mais de dez anos. A enfermidade é citada na lista de doenças tropicais negligenciadas da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2008. “Trata-se de uma doença que afeta majoritariamente aqueles que não têm voz”, destaca a médica britânica Gail Davey, principal pesquisadora da podoconiosis na atualidade. Isso porque, devido ao estigma social que provoca, muitas vítimas da doença se escondem, e isso contribui para sua invisibilidade.

 

“PÉ MUSGOSO”

Em 1997, aos 84 anos, o médico missionário Nathan Barlow retornou à Etiópia, duas décadas depois de fugir do país por causa da decisão do governo de nacionalizar todos os hospitais. Nos 20 anos seguintes, ele trabalharia na República Centro-Africana e no Congo, e já conhecia a doença desde os anos 1950, embora, na época, não houvesse qualquer tratamento efetivo. Em seu retorno ao país, Barlow começou a procurar por medicamentos eficazes e, paralelamente, mais vítimas começaram a sair do esconderijo em busca de ajuda. O médico fundou, então, o Mossy Foot Project (“Pojeto pé musgoso”), com sede na cidade de Soddo, no sul da Etiópia. Poucos anos depois, Gail Davey e seu marido deixaram a Inglaterra para ensinar na Universidade de Addis Abeba. Em seu primeiro ano ali, a embaixada britânica pediu a ela que avaliasse uma proposta de financiamento para o projeto.

Gail visitou a sede da organização em Soddo e, nas suas palavras, foi imediatamente impactada pelo fato de os pacientes estarem à frente do trabalho. Ela também percebeu que havia encontrado a pesquisa de seus sonhos. Ali estava uma doença que afetava severamente milhões de pessoas e sobre a qual não se conhecia quase nada. Havia relatos de surtos da doença em várias regiões, mas ninguém ainda havia mapeado o fenômeno cientificamente – não se sabia sequer como era a evolução da doença e estava claro que a pesquisa apropriada poderia conduzir a uma ação imediata e efetiva, tanto no tratamento quanto na prevenção. “É formidável pensar que realmente há algo a fazer. Gosto de ter um objetivo claro a ser alcançado”, diz a médica. “Não sabíamos exatamente qual seria nosso papel na Etiópia quando chegamos ali. Acredito, firmemente, que Deus nos levou ao trabalho com os pacientes de podoconiosis. De alguma forma, os cristãos foram direcionados para esse trabalho, servindo os mais pobres, aqueles que não têm voz”, sustenta.

Ao mesmo tempo, freiras ligadas à ordem católica das Filhas da Caridade começaram a promover sessões de tratamento da doença em áreas remotas do país. Cora Bruin, uma holandesa especialista em antropologia médica, conheceu o trabalho das religiosas durante uma viagem de férias e ficou assustada com o fato de que doenças já perfeitamente tratáveis em outras regiões do mundo, como o bócio (aumento da glândula linfóide) ainda eram comuns ali. Mais tarde, Cora voltaria sua atenção para a podoconiosis, pensando tratar-se de elefantíase, mas o uso de medicamento para tratar vermes filariais não teve resultado. Bruin mergulhou na lieratura médica até que se deparou com o trabalho de Price, o primeiro a estabelecer uma conexão entre os sintomas da doença e o solo vulcânico. Isso levou-a, juntamente com as freiras, a conhecer o trabalho do “Projeto pé musgoso”. Agora, empregando as técnicas de que tomaram conhecimento, as irmãs estão começando a frear o processo de disseminação da podoconiosis e, por meio de educação, treinamento e discipulado cristão, capacitam as pessoas que ficam curadas a voltar a ter uma vida normal.

O projeto promove sessões semanais para tratamento da doença em 15 lugares diferentes, utilizando espaços cedidos pelo centros de saúde do governo etíope. Nativos portadores da doença são os mais envolvidos no cuidado com os pacientes e no trabalho de conscientização para a prevenção. Eles ensinam a como evitar a doença, a tratá-la e vão à casa dos pacientes se eles deixam de comparecer aos centros de saúde. Cada sessão semanal de tratamento tem início com a leitura de um texto bíblico e uma oração. Impossível deixar de associar o trabalho humanitário a uma das atitudes mais emblemáticas de Cristo – a lavagem dos pés de seus discípulos. “Andei por Dembi Dollo, no oeste da Etiópia, com as freiras, enquanto elas lavavam os pés dos pacientes de podoconiosis”, diz o médico americano Larry Thomas. “Assim, percebi que podia fazer o mesmo, com a mesma alegria que elas”, conta.

 

ÁGUA, ATADURAS E SAPATOS

Uma das pacientes tratadas pelas freiras é Dembi Fedasan, de 35 anos. Aos quinze, seus pés começaram a coçar e a inchar, até atingirem um tamanho enorme. Logo, ela não podia mais ir à escola por causa da dor que sentia para caminhar. Ela sabia qual era o problema, já que várias pessoas em sua comunidade tinham a mesma doença. Conforme o quadro progredia, um mau cheiro terrível passou a acompanhá-la. Ela viu sua vida social ser precocemente interrompida. Daquele jeito, ninguém mais iria se casar com ela ou com qualquer de seus irmãos ou irmãs. O estigma da doença havia “infectado” toda a família.

Em uma sociedade em que a mão de obra é tão essencial para o cultivo das lavouras, Dembi já não podia dar sua contribuição à comunidade. Por isso, ficava em casa, isolada e coberta de vergonha. Há três anos, porém, Dembi descobriu que havia tratamento disponível para seu problema a quase 200 quilômetros do lugar onde vive sua família. Como a passagem de ônibus seria muito cara para ir e vir todos os dias, ela se mudou para Dembi Dollo e, ali, trabalha como doméstica. O tratamento é simples: consiste em banhar os pés, esterilizá-los com uma substância alvejante, aplicar loções e colocar ataduras – e já têm feito grande diferença. O maior sonho de Dembi hoje é voltar para a sua cidade, ter uma criação de animais e uma pequena plantação.

Nathan Barlow morreu em 2004, aos 91 anos, mas o trabalho prossegue até hoje sob a liderança de nativos e com o apoio da filha do médico, Sharon, e de seu marido, Jim Daly. Além do foco no tratamento e na prevenção, o projeto também distribui calçados especiais feitos em uma oficina própria, uma vez que muitos pacientes de podoconiosis não podem usar sapatos ou sandálias normais. Os voluntários ainda distribuem sabão, alvejante e calçados para os filhos das vítimas. Os atendidos pelo projeto também têm acesso a cursos profissionalizantes e financiamento para pequenos empreendimentos, afim de que possam manter-se.

A doação de calçados apropriados aos doentes, bem como às pessoas que ainda não desenvolveram podoconiosis ganhou um empurrão e tanto graças à participação do jovem empresário texano Blake Mycoskie. Em 2006, ele viajou de férias para a Argentina e, enquanto observava o estilo dos calçados locais e pensava como adaptá-los ao gosto do consumidor americano, notou que muitas crianças pobres andavam descalças. Como homem de negócios e cristão, logo fez da compaixão a alavanca para uma grande iniciativa solidária: a Calçados Toms. A empresa nasceu com a promessa de que cada par comercializado corresponderia à doação de um outro para uma criança carente. A idéia foi um sucesso imediato. Em nenhum lugar do mundo o projeto se mostrou mais necessário que na Etiópia, onde um simples par de sandálias pode transformar a vida de uma pessoa.

Depois de visitar Dembi Dollo, Mycoskie quis cerrar fileiras com o projeto no combate à podoconiosis e convocou o médico Thomas para ajudá-lo. “Pensei que se todos trabalhássemos juntos, poderíamos fazer algo grandioso”, revela Thomas. “Ainda há muito a fazer ainda, mas quantas vezes na vida você tem a chance de ser um pioneiro?” A Toms tem como alvo distribuir calçados para os filhos dos pacientes de podoconiosis, os quais são cinco vezes mais propensos a contrair a doença do que a população em geral. Somente através do projeto pés musgosos, a empresa distribui dez mil pares de calçados por mês.

A surpreendente união de pessoas de formações, perfis e confissões religiosas tão diferentes em torno de uma mesma causa tem produzido resultados espetaculares. Larry Thomas nada sabia sobre a podoconiosis, mesmo quando dirigiu um hospital ligado à Igreja Adventista do Sétimo Dia em Gimbi, na Etiópia. Alguns dos médicos tomaram conhecimento do trabalho das freiras na capital e começaram uma parceria. Inspirado pelo idealismo daquelas religiosas e pela eficiência do tratamento, Thomas começou a levantar recursos em sua cidade, Loma Linda, na Califórnia, por meio de uma parceria bastante atípica, entre as igrejas católica e adventista.

Quando encontrou Dembi Fedasan, o médico ficou perplexo. Ela já havia começado o tratamento, mas seus pés ainda estavam com um aspecto grotesco e Thomas pediu permissão para fotografá-los. Tempos depois, Evelyn, uma das irmã da Caridade, enviou-lhe outra foto dos pés de Dembi. Ele mal pode reconhecê-los: estavam bastante desinchados, graças ao tratamento. Desde então, Thomas não conseguiu mais parar de trabalhar no apoio ao tratamento dos pacientes de podoconiosis por meio de sua fundação.  Ele continua a atuar como médico em tempo integral no Sul da Califórnia, mas seu coração está na Etiópia. Afinal, graças a ele e a uma aliança improvável de cristãos, gente antes “invisível” como Dembi Fedasan está não apenas sendo transformada, como também vista por muita gente.

Tim Stafford é colaborador sênior de Christianity Today

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Fri, 17 Feb 2012 9:17:55 +0000 Fri, 17 Feb 2012 9:17:55 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=840
O livro que transforma

Todo cristão sabe: ler a Bíblia e meditar nas Escrituras Sagradas é prática recomendável é necessária para uma vida espiritual saudável. Estudos e mais estudos são feitos para descobrir a quantidade de tempo que as pessoas dedicam à leitura bíblica, a credibilidade que dão aos relatos da Palavra de Deus e no quê esta disciplina espiritual influencia sua fé. O que nem sempre se leva em conta são os efeitos disso sobre outras áreas da vida humana, como posição política, comportamento social e opinião diante de temas considerados polêmicos. Pois levantamentos recente descobriram que o contato frequente com as Escrituras pode mudar até mesmo opiniões culturalmente arraigadas. Por mais paradoxal que seja, uma leitura constante e metódica da Bíblia pode até mesmo tornar a pessoa mais liberal.

Sabe-se que 89% dos lares nos Estados Unidos possuem ao menos um exemplar das Sagradas Escrituras cristãs (ainda não há pesquisa similar no Brasil). Mas ter o Livro Sagrado em casa não significa o mesmo que lê-lo com frequência – e os resultados de pesquisas a respeito dos hábitos de leitura bíblica podem ser surpreendentes. Diversos estudos realizados com o fim de examinar a influência da Bíblia têm mostrado a questão apenas do ponto de vista de sua inspiração e dos métodos interpretação. O Instituto Gallup, por exemplo, há quatro décadas, pergunta aos americanos em que medida o conteúdo bíblico deve ser interpretado de forma literal. Comparativamente, muito pouco tem sido pesquisado sobre o que acontece quando alguém lê a Bíblia, de fato – especialmente, quando isso é feito de forma independente e fora do ambiente de culto.

É de se supor que essas questões sejam redundantes, ou seja, que pesquisas do gênero sejam apenas meras formas de medir a religiosidade das pessoas, de dimensionar a frequência com que vão à igreja, se interpretam a Bíblia literalmente ou não, e ainda quanto tempo costumam gastar em oração. Quando esses indicadores são analisados, normalmente, encontra-se uma correlação direta com o conservadorismo moral e político. Isso é uma tendência, mas está longe de ser a regra. Acontece que ler a Bíblia a sós faz diferença também. E o mais interessante é que essa diferença pode ser o oposto do esperado.

A leitura frequente das Escrituras tem alguns efeitos previsíveis, como por exemplo, aumentar a oposição do crente ao pecado em geral e a algumas questões em particular, como a condenação ao aborto ou à prática homossexual. Leitores costumeiros do livro também acreditam que a ciência ajude, de alguma forma, a revelar a glória de Deus, mas não têm muitas esperanças de que os cientistas, algum dia, serão capazes de resolver os problemas da humanidade. Mas, em contrapartida, o contato frequente com a Bíblia faz com que o leitor se torne mais propenso a concordar com os liberais em alguns assuntos. Isso acontece mesmo quando se leva em conta as convicções políticas, o nível educacional, a renda, o gênero, a raça e outros critérios, como a filiação religiosa e o ponto de vista pessoal sobre o literalismo bíblico.

 

TERRORISMO, JUSTIÇA E CIÊNCIA

Em 2007, a Baylor Religion Survey (“Pesquisa Baylor sobre religião”) perguntou aos norte-americanos com que frequência eles liam a Bíblia sozinhos. Os respondentes tinham que escolher entre cinco respostas padrão, que iam de “nunca” a “várias vezes por semana”. A pesquisa também investigou o posicionamento político dos entrevistados e descobriu coisas interessantes. Na ocasião, as pessoas foram questionados, por exemplo, se o governo de seu país deveria ter poderes ampliados para lutar contra o terrorismo – uma referência ao Ato Patriótico (lei criada após os atentados de 11 de setembro de 2001, a qual dá ao Estado o direito de espionar e interrogar possíveis suspeitos de terrorismo). Segundo a pesquisa, quanto maior a frequência da leitura bíblica, menor o apoio dos entrevistados ao Ato Patriótico.

A leitura frequente da Bíblia também influencia a visão sobre a Justiça. Como era de se esperar, os respondentes mais liberais tenderam a discordar da frase: “Os criminosos deveriam ser punidos com mais severidade”. No entanto, os leitores mais frequentes da Bíblia também o fizeram. O contato com a mensagem bíblica, igualmente, afeta o apoio dos leitores à pena de morte. De acordo com a pesquisa, quanto maior a frequência de leitura das Escrituras, maior o apoio dos respondentes ao fim da pena capital. Ler a Bíblia também mexe com as atitudes do leitor em relação à ciência. Quando as pessoas são questionadas sobre o literalismo bíblico, não são encontradas diferenças estatísticas significativas quanto ao fato de ciência e religião serem compatíveis entre si – no entanto, quanto mais uma pessoa lê a Palavra de Deus, mais ela tende a acreditar que as duas esferas, consideradas tão antagônicas ao longo dos séculos, são, sim, compatíveis.

Outro achado interessante dos estudos refere-se a atitudes morais. A pesquisa perguntou se, para se tornar uma pessoa melhor, quão importante é buscar, ativamente, a justiça econômica e social. Novamente, como seria de se esperar, aqueles com tendências políticas liberais se mostraram mais propensos a dizer que isso é importante de alguma forma. Mas aqueles que leem a Bíblia com mais frequência também concordaram. De fato, eles foram quase 35% mais propensos a responder “sim” a tal pergunta.

Da mesma forma, ao contrário do estereótipo da mídia liberal, aqueles que são mais comprometidos com a fé – por lerem as Escrituras mais direta e frequentemente, por exemplo – são os que dão maior apoio à justiça social e econômica. Na verdade, leitores literalistas e politicamente conservadores são quase tão propensos a abraçar as causas sociais quanto aqueles que se classificam como politicamente liberais e críticos do literalismo. Na mesma linha, a pesquisa também perguntou se alguém deve reduzir o consumo como forma de se tornar uma pessoa melhor. Tanto os politicamente liberais quanto os leitores mais frequentes da Bíblia se mostraram mais propensos a dizer que sim.

Tome-se, por exemplo, um evangélico que seja politicamente conservador, tenha cursado o ensino superior, possua uma renda razoável, creia literalmente na mensagem da Bíblia, mas que não leia o livro sagrado com tanta frequência. Essa pessoa terá apenas 22% de chance de dizer que reduzir o consumo é um comportamento ético. Contudo, a mesma pergunta dirigida a alguém com as mesmas características, mas que leia a Bíblia frequentemente, terá chance 44% maior de ser respondida da mesma maneira.

 

SIGNIFICADO PESSOAL

A discussão se torna ainda mais interessante quando se considera quem é mais propenso a ler a Bíblia com frequência. Os evangélicos e os que a interpretam literalmente são os mais conservadores nos tópicos citados. Em outras palavras, aqueles que leem as Escrituras com mais frequência são mais conservadores; entretanto, quanto mais leem, mais tendem a mudar seus pontos de vista a respeito, pelo menos, desses assuntos. Por que isso acontece? Uma explicação possível é a seguinte: os leitores tendem a ter expectativas em relação a um texto antes de iniciar sua leitura. Dada a proeminência do texto bíblico entre os cristãos, é de se supor que muitos pensem que já sabem tudo o que ali está escrito, mesmo antes de começar a ler Gênesis 1. No entanto, uma vez que, de fato, iniciem a leitura, serão surpreendidos por um novo conteúdo que passará a estar integrado àquele que lhes era familiar. A verdade é que as crenças mudam com as novas informações acrescentadas.

Mas não será necessariamente o conteúdo novo a surpreender o leitor. Basta apenas que esse conteúdo seja pessoalmente relevante para ele. Leitores frequentes da Bíblia podem ter visões divergentes quanto à sua autoridade, mas tendem a lê-la de maneira devocional, na expectativa de que esta lhes fale algo diretamente. E eles a lerão até se depararem com algo que realmente lhes chame a atenção. Mesmo que o leitor não creia plenamente nas Sagradas Escrituras como a infalível Palavra de Deus e que o texto bíblico careça de um bocado de interpretação, esse momento pode ter um tremendo significado pessoal.

Mas a leitura bíblica não é encarada, necessariamente, como algo subjetivo. Seus leitores também percebem as Escrituras como sendo a Palavra de Deus, ainda que escrita por autores que tinham contextos e intenções específicas, e desejam se tornar cada vez mais semelhantes ao que ali está escrito. Afinal, para que serviria ler a Bíblia quando não se tem qualquer desejo de abraçar o que ela ensina? Em outras palavras, ler o texto bíblico pode, por vezes, mudar as visões e atitudes dos leitores, os quais acabam sendo supreendidos pelo que ali está escrito.

 

Aaron B. Franzen é graduando do Departmento de Sociologia da Universidade Baylor, nos EUA

 

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Fri, 13 Jan 2012 14:34:24 +0000 Fri, 13 Jan 2012 14:34:24 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=839
Decisões para um novo ano

Este ano eu prometo... eu realmente quero...Oh, meu Deus, talvez eu não deva fazer qualquer decisão de ano novo, afinal eu nunca as cumpro, de qualquer forma. É simplesmente muito difícil!

Você já se sentiu assim? Eu já, muitas vezes. Mas eu também aprendi que o ano novo é uma boa época para reavaliar a influência que minhas ações e atitudes têm sobre o desenvolvimento do caráter dos meus filhos. Eis aqui cinco decisões que eu sei que preciso manter neste ano:

1. Alcançar alguém que não conheça Cristo – Talvez, assim como eu, você seja tentado a gastar todo o seu tempo com amigos cristãos – pessoas como você. Afinal, se você quer que seus filhos cresçam na fé, você precisa colocá-los em contato com pessoas de fé! Mas, ao mesmo tempo, Deus nos ordena a sermos sal da terra e luz do mundo (Mateus 5:13-16); o que não acontecerá se passarmos todo o nosso tempo com outros crentes.

Nossos filhos estarão dispostos a alcançar não-crentes quando crescerem? Aposto que sim, se eles virem isto em você, como um modelo para suas vidas.

Por exemplo, minha amiga Sandy criou um grande interesse por uma vizinha chamada Carol. Sandy convidou Carol para almoçar e levou-a em uma feira de artesanatos.

Embora Carol e seu marido não tivessem filhos, Sandy a incluiu em atividades que ela faria com seus filhos. Carol e seu marido não eram crentes e não iam à igreja, mas, por curiosidade, eles logo começaram a freqüentar junto com seus novos amigos. Depois de um tempo, Carol e seu marido tornaram-se crentes. Tudo começou porque Sandy teve a intenção de desenvolver uma amizade genuína com não crentes, e seus filhos viram o resultado.

Este ano resolva ser amigo de alguém que não é crente. Pode ser uma colega de trabalho, uma vizinha, uma professora de seus filhos ou mesmo a sua cabeleireira.

Embora pareça assustador, quando você assumir o risco, verá Deus trabalhando através de você de uma forma emocionante!

2. Tornar-me uma pessoa grata – Eu costumava acordar de manhã pensando em todas as coisas que eu tinha que fazer e em todas as pessoas que precisavam de mim. Ficava deprimida antes mesmo de sair da cama! Eu percebi que precisava ajustar minhas atitudes. Então comecei a meditar sobre um dos traços do caráter de Deus na hora de acordar. Enquanto eu estava deitada tranqüilamente em minha cama, pensando como Deus é incrível, a minha perspectiva sobre o meu dia mudava drasticamente!

Ninguém gosta de estar cercado por crianças choronas. Mas quando elas são gratas, é delicioso. Da mesma maneira, quando agradecemos a Deus, isto emociona o Seu coração.

Minha amiga Elaine diz: “A prática da gratidão é a disciplina que nos ensina a experimentar o amor de Deus”. Lembre-se de que seus filhos captam as suas atitudes. Se você se queixa, eles estarão mais propensos a se queixarem. Se você sempre vê as coisas pelo lado negativo, seus filhos vão se concentrar no que estiver faltando. A sua disposição permeia a atmosfera da sua casa. Você quer criar filhos positivos? Então resolva tornar-se uma mulher grata. Você causará um impacto positivo sobre as gerações vindouras.

3. Passar mais tempo de qualidade com meu marido – Meu marido, John, e eu tínhamos um maravilhoso pé de framboesa. Nos primeiros anos eu cuidava dele e ele produzia bastante. Então eu comecei a ficar ocupada com muitos compromissos e, quando me dei conta, as ervas daninhas haviam crescido, e o meu pé de framboesa morreu.

Um casamento pode se tornar como o meu pé de framboesa. Nos tornamos ocupadas com crianças, carreira, igreja, pais idosos e trabalhos voluntários. Nós pensamos que vamos passar mais tempo com nossos maridos quando a vida se acalmar. O problema é que a vida nunca se acalma.

Não permita que as ervas daninhas das “outras coisas importantes”, mesmo que sejam os seus filhos, sufoquem o seu casamento. Resolva nutri-lo. Este ano, pergunte o que você pode fazer para ajudar a seu marido e você a crescerem juntos. Pode ser marcando um encontro semanal – uma noite, um café da manhã ou uma tarde.

Tenha em mente que o senso de segurança de seus filhos é construído sobre a certeza de que você os ama, mas é ainda mais forte quando eles sabem que você ama o pai deles. Você está criando futuros maridos e esposas que precisam saber que um casamento feliz toma tempo. Se eles os virem nutrindo o de vocês, eles aprenderão uma tremenda lição.

4. Dizer “não” para algumas coisas! – Ok, todos nós sabemos que existem muitas demandas, muitas escolhas e pouco tempo. Mas parte do amadurecimento significa aprender a adiar algo que você realmente gostaria de fazer agora para uma outra época da vida, para se concentrar em algo ainda mais importante. Talvez seja aquela oportunidade na carreira, então você terá mais tempo com seus filhos, ou aquele passeio com seus amigos, então você estará por perto quando seus adolescentes receberem seus amigos em casa.

Talvez você precise dizer “não” para que seus filhos entrem em mais um time e, então, sua família poderá ter um jantar especial.

Pergunte a si mesma: em dez anos o que terá sido mais importante: você ter trocado a companhia de seu filho por outra atividade ou ter dito “não” e ter jantado com sua família? Ter participado de outro compromisso ou ter dito “não” e então ter passado mais tempo com seu marido?

5. Seguir a Cristo com mais vigor – Você, às vezes, sente que seu relacionamento com Cristo anda frio? Eu, certamente, sinto. Mas quando isto acontece comigo, eu faço a oração do rei Davi: “Devolve-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito pronto a obedecer”. (Salmos 51:12)

Enquanto este novo ano começa, resolva resgatar aquela alegria. Varie as coisas que você normalmente faz durante o seu tempo a sós com Deus. Determine um tópico novo para leitura da Bíblia. Comece um novo blog!

Se você fizer algumas mudanças e ainda se sentir fraco, peça a Deus que lhe mostre o motivo. Existe algum pecado em sua vida que você está ignorando? Um relacionamento errado, autopiedade, ciúme? O autor de Hebreus nos encoraja dizendo “livremo-nos de tudo que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta. Tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé”. Esta é uma decisão que você não pode se permitir recuar!

 

Susan Alexander Yates é autora de diversos livros, incluindo How to Like the Ones You Love: Building Family Friendships for Life (Baker Books).

 

Copyright © 2012 por Christianity Today International

(Traduzido por Ana Maria Rocha Neves)

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Tue, 10 Jan 2012 19:02:47 +0000 Tue, 10 Jan 2012 19:02:47 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=838
Cuidado com os ladrões do tempo neste novo ano

Era um daqueles momentos cruciais: um momento de iluminação. Eu tinha dezoito anos e queria entreter meu irmão de cinco anos. Por isso, eu me ofereci para levá-lo para um passeio em um parque de diversões. Com vinte e um dólares na carteira, eu era o típico irmão mais velho.

 

Ao atravessarmos pelo portão de entrada, passamos pela fazendinha, pelos celeiros, pelas barracas de pipoca e cachorro-quente, lojas de doces e roupas. Nós tínhamos uma coisa em nossa mente: as voltas da roda gigante. Os giros da roda gigante haviam marcado nosso destino àquele lugar.

 

Infelizmente, nós não fomos até ela. Uma distração nos tirou do nosso caminho.

 

Após passar pela área de jogos, escutei alguém me chamar. Pelo menos eu acho que escutei. Dei uma olhada ao meu redor para ver se identificava aquele que me chamava, e um homem acenou para mim de dentro de uma cabine.

 

Isso é suficiente para eu dizer que em cinco minutos ele já tinha ganhado boa parte do meu dinheiro, e ainda faltavam cinco pontos para eu ganhar um panda de pelúcia.

 

Foi quando eu me dei conta do que havia acontecido. Eu estava chateado com o vendedor na cabine. Contudo, estava ainda mais chateado comigo mesmo. Eu perdi 17 dólares e muitas voltas na roda gigante com meu irmão. Todavia, aprendi uma lição: distrações podem te levar a perder o foco de seus planos.

 

A Bíblia nos orienta a vivermos com prudência, aproveitando as oportunidades e procurando fazer a vontade de Deus: “Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor” (Ef 5.:15-17).

 

Três princípios fundamentais emergem destes versos:

 

1. Conheça seu destino – Descubra a vontade de Deus e seus propósitos, e você usará seu tempo de forma mais efetiva. Se Deus nos quer em Dallas, é uma perda de tempo estarmos no Grand Canyon ou na face rochosa do monte Ruchmore.

 

Constantemente gastamos meses ou até mesmo anos dirigindo-nos a um lugar quando, na verdade, Deus está claramente nos orientando para outra direção. Discorrer sobre o conhecimento da vontade de Deus é mais fácil do que, de fato, conhecer sua vontade. Isto, porque o conhecimento de sua vontade exige discernimento. Exige oração. Exige os insights de um espiritual e inteligente amigo que nos conhece o suficiente e que reconhece o trabalho de Deus em nós.

 

Agora, diante do começo de um novo ano, separe um tempo para considerar seus destinos e os destinos de seu ministério. Quais suas impressões acerca da direção de Deus para seu ministério? É esta a direção que você tem em mente e pretende seguir? Você está animado com ela? Ela está suficientemente clara em sua mente?

 

Esta é a hora de corrigir seu caminho parcialmente ou de mudá-lo por completo.

 

2. Aproveite ao máximo cada oportunidade – Bear Bryant, famoso técnico de futebol americano do Alabama falou sobre seus primeiros momentos como treinador do Kentucky. Seu time deixou a bola cair em frente do banco e, no meio da confusão, alguém deu um chute em uma caixa na qual havia outras oito bolas. Como resultado daquele alvoroço, o time do Tennessee estava com a posse de cinco bolas e o do Kentucky com quatro. Os juízes, por isso, deram a posse de bola para o time do Tennessee. Moral da história: quando a bola vier em sua direção, agarre-a. Aproveite as oportunidades quando elas aparecerem.

 

Nós podemos criar oportunidades quando necessário, mas às vezes, quando as criamos, acabamos nos distanciando do que Deus deseja de nós. Se, ao invés disso, estabelecermos como objetivo abraçar as oportunidades que nos aparecem, pouparemos tempo e estaremos mais propensos a fazer a vontade de Deus.

 

Existem oportunidades que você ou seu ministério falharam ao deixarem de abraçá-la? Quais oportunidades estão diante de você agora, que você ainda não conseguiu enxergar como uma chance de Deus para sua vida?

 

3. Tome cuidado com a forma pela qual você vive – Por prudência, agora eu não mais me distraio com locutores e vendedores em cabines nos parques de diversão. Contudo, necessidades urgentes ainda tentam me distrair de meus principais propósitos e planos. Muitos pregadores reclamam que pessoas com seus problemas acabam roubando seu tempo de preparo de um sermão e que questões organizacionais os distraem no exercício de seu ministério.

 

Quando organizarmos nosso tempo de forma eficaz, nós trabalharemos sem permitir que as urgências tomem tempo das prioridades. Isso exige de nós capacidade de identificarmos o que é prioritário em nossas vidas e força de vontade para dizermos “não” àquilo que nos interrompe e que sabemos não fazer parte dos propósitos divinos.

 

Invista alguns minutos para identificar as tarefas prioritárias em seu ministério. O que você está fazendo para protegê-las e para guardar o tempo que você precisa para cumprir seu chamado? Quem você pode chamar para ajudar-lhe a manter-se focado no que é central?

 

Nós temos 525.600 minutos neste ano. Com muita oração, nós podemos começar a remir o tempo, antes que percamos um único e precioso minuto.

 

 

Richard Doebler é pastor em Cloquet, Minnesota.

 

Copyright © 2012 por Christianity Today International

 

(Traduzido por Daniel Leite Guanaes)

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Tue, 10 Jan 2012 18:38:37 +0000 Tue, 10 Jan 2012 18:38:37 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=837
Masculino e feminino

Tudo bem que a inspiração e as motivações do cantor Pepeu Gomes, ao compor a música Masculino e feminino, podiam ser as mais diversas possíveis. Mas ele acertou na mosca com versos como “Ser um homem feminino/Não fere o meu lado masculino” – ao menos, na opinião da psicóloga clínica Isabelle Ludovico. Francesa, radicada no Brasil desde a juventude, cristã e casada com o pastor Osmar Ludovico, ela tem uma teoria muito clara sobre a questão. “O princípio feminino é o princípio da vida, do afeto, que é importante tanto para a mulher como para o homem”, defende. “O homem precisa se dar o direito de ser sensível”. E ela não diz isso para levantar bandeiras feministas e, muito menos, antimachistas. No seu entender, embora Deus tenha criado homem e mulher com papéis sexuais e sociais definidos, a ternura não deve ser perdida jamais. “Fomos criados para amar. Só que, ao longo da história, sempre se proibiu o homem de desenvolver esse princípio feminino, gerando assim o modelo do machão bruto, amputado de sua afetividade – um ser incapaz de acolher seus medos e vulnerabilidades.”

Dona de uma formação multidisciplinar, que envolve graduação em economia e especialização em terapia familiar sistêmica, Isabelle conversou com CRISTIANISMO HOJE sobre questões comportamentais e seus desdobramentos sobre a família, a sociedade e a Igreja. Acerca desta, aliás – que conhece muito bem, já que tem uma longa trajetória evangélica como palestrante, escritora, conselheira e uma das líderes da Comunidade de Jesus, em São Paulo –, entende que terá muito a ganhar com uma participação feminina efetiva: “A contribuição das mulheres na liderança é legítima, já que o Espírito distribui os dons conforme lhe apraz e não conforme o sexo”. Confira a entrevista:

 

CRISTIANISMO HOJE – Em seus trabalhos, a senhora menciona bastante o que chama de princípio feminino. Pode defini-lo?

ISABELLE LUDOVICO – O princípio feminino é o princípio da vida, do afeto, que é importante tano para a mulher como para o homem. A mulher masculinizada de hoje precisa resgatar sua sensibilidade; mas o homem necessita se dar o direito de ser sensível. Acontece que, na nossa cultura, o homem mais sensível é logo taxado de efeminado. No entanto, homem e mulher são chamados a equilibrar emoção e razão, desenvolvendo a famosa inteligência emocional. O princípio feminino faz desabrochar a mulher e propicia uma nova masculinidade. Ele precisa ser resgatado tanto pelos homens quanto pelas mulheres, a fim de tornar o ser humano mais inteiro, mais terno. Deus criou o homem e a mulher iguais em essência, valor e dignidade, mas diferentes na sua sexualidade. Segundo as Escrituras, eles estavam nus, mas não se envergonhavam disso porque havia respeito entre eles e Deus. Repare que o Senhor incumbiu a ambos – homem e mulher – de, juntos, governarem a terra. Mas, movidos pela ânsia de poder, pelo desejo de ser, na expressão bíblica, “como Deus”, eles quebraram a comunhão com o Criador. Assim, escolheram o poder, em vez do amor.

 

Essa ruptura está na origem dos conflitos entre os gêneros?

Sim, porque, com a queda, logo, começaram as acusações mútuas e cada gênero criou seus mecanismos de defesa para se proteger do outro. O homem deu à mulher o nome de Eva – mãe de todos –, e tratou de governar sozinho. Dali em diante, as relações humanas foram se esfarelando. A ganância nos levou à beira da destruição pelo esgotamento dos recursos naturais, pela poluição, pelo aumento da disparidade entre ricos e pobres, pela exploração do homem pelo homem, pela violência. Se não houver um resgate do princípio feminino que nos leve à solidariedade, à justiça social, ao desenvolvimento sustentável, à simplicidade e à equidade, estaremos determinando o nosso fim.  

 

Esse principio feminino é fundamental, também, para os homens?

Todo ser humano tem dentro de si o princípio feminino e o princípio masculino – eros e logos, yin e yang, como quisermos denominar essas duas forças. Como diz a filósofa francesa Paule Salomon, “nascemos num corpo sexuado, mas temos que descobrir que nosso psiquismo é bissexuado. E, quanto mais aceitamos esta bissexualidade, mais evoluímos”.  O que se espera é que o princípio dominante esteja em harmonia com a identidade biológica do indivíduo; mas a sociedade, ao longo da história, sempre proibiu aos homens desenvolver esse princípio feminino, gerando assim o modelo do machão bruto, amputado de sua afetividade – um ser incapaz de acolher seus medos e vulnerabilidades. Fomos criados para amar. Esta é a essência do ser humano. Mas preferimos dar lugar à razão: o famoso dito “Penso, logo existo”, de Descartes, expressa bem isso. Só que a consequência mais visível desse mundo racional é sua situação hoje, à beira da destruição.

 

E o tradicional papel bíblico da submissão feminina, como fica no meio de tudo isso?

O conceito bíblico é de submissão mútua. O homem e a mulher foram comissionados para, juntos, governarem a terra. A submissão imposta de forma unilateral às mulheres é, também, fruto da queda do gênero humano. Os homens são exortados a amar suas esposas como Cristo amou a Igreja, dando sua vida por ela. Não há submissão maior do que esta! Em Cristo, podemos resgatar o projeto original da criação, pois somos restaurados na nossa unidade e parceria. O que mais me preocupa é a atitude de muitos homens hoje em dia: eles são omissos, irresponsáveis, acomodados, paralisados diante desta mulher poderosa e questionadora. As mulheres estão crescendo e muitos homens encontram-se estagnados. Acontece que, numa cultura machista, o homem tem que ser forte e não pode expor a sua vulnerabilidade, principalmente na área sexual. E as igrejas reforçam este preconceito quando tendem a ser uma galeria de santos, em vez de um hospital de pecadores, de pessoas machucadas e em processo de restauração. Como diz Brennan Manning, somos todos maltrapilhos, mas escondemos nossa condição atrás de títulos e máscaras. Há mais sinceridade numa reunião dos Alcoolicos Anônimos do que na igreja. O que esses homens precisam lembrar é do conselho de Paulo, de que devemos nos gloriar nas nossas fraquezas, porque é nelas que experimentamos o poder de Deus. Quem nega suas falhas está desprezando a cruz e se privando do poder de restauração que se encontra na confissão.

 

Em seu livro O resgate do feminino (Mundo Cristão), a senhora fala que essa inversão de papéis enfraquece as relações familiares. Como isso pode ser percebido?

É sabido que as mulheres, hoje, estão dando prioridade à sua carreira profissional. Com isso, o projeto de ter filhos é protelado – a menos que os filhos sejam entregues aos cuidados de terceiros. Assim, a disponibilidade de tempo e afetividade da mãe em relação aos seus filhos é mínima. Por outro lado, a culpa pela ausência dificulta a colocação de limites saudáveis, o que acarreta o recurso às compensações materiais.  Nos dias de hoje, muitos pais estão delegando à escola – ou à igreja, no caso dos crentes – a tarefa de educar seus filhos. Então, eles acabam sendo “educados” pela TV ou passam muitas horas jogando videogame. O tempo de qualidade em família é raro, pois os pais chegam cansados em casa.

 

Mas isso é resultado de nosso tempo, não?

Sim, porque com as conquistas nos campos pessoal e profissional, as mulheres acabaram assumindo múltiplas demandas, uma vez que, de modo geral, ainda  não conseguiram dividir as responsabilidades em relação à casa e às crianças com o homem. Assim, elas ficam estressadas e sua relação amorosa é tensionada por tantas cobranças – e, muitas vezes, acabam sozinhas, pois o homem se ressente dessa dinâmica e tende a se retrair e se fechar. É uma situação muito preocupante.

 

Essa ruptura com os papéis femininos tradicionais não era inevitável, sobretudo depois da revolução sexual dos anos 1960?

Durante séculos, a mulher foi limitada ao papel de mãe e dona de casa. Então, para conquistar seu lugar num mundo construído pelos homens, ela quis provar sua capacidade competindo com eles. No entanto, isso a levou ao outro extremo: o de negligenciar seu lado feminino. Muitas mulheres estão até escolhendo não ter filhos em prol da carreira profissional, ou deixam a maternidade para mais tarde. Outras não querem nem saber de entrar numa cozinha. Creio que está na hora de resgatar aquilo que era obrigação e hoje pode ser assumido como escolha livre, o que faz toda a diferença. Mas é injusto que a responsabilidade pela família seja dada exclusivamente às mulheres. A mãe é essencial nos primeiros meses, enquanto amamenta, mas logo a figura paterna se torna muito importante. Os filhos precisam de modelo masculino e feminino. Uma relação prazerosa entre marido e mulher é que gera famílias estruturadas e filhos emocionalmente equilibrados.

 

E onde entra a ação divina nessa mudança de comportamento?

O resgate do principio feminino por homens e mulheres tem consequências na qualidade da vida afetiva, inclusive com Deus. Ele desperta capacidades com a de escuta, entrega, paixão, dependência, humildade, discernimento e compaixão.  O principio feminino no homem, que Jung chamou de anima, lhe abre o caminho do coração e facilita, inclusive, a sua relação com Deus. Portanto, reintroduzir a dimensão afetiva é hoje uma questão de sobrevivência da espécie humana – só assim poderemos cumprir nossa missão de abrir a via da interioridade e da intimidade, tornando-nos receptivos ao amor de Deus, que nos fecunda e nos transforma à sua imagem. Reconciliar o feminino e o masculino em nós vai nos conduzir a uma unidade além da dicotomia: a de sermos um em Cristo.

 

Isso não leva a uma inversão dos papéis tradicionais do homem e da mulher?

Não, porque o conceito bíblico é de submissão mútua. O homem e a mulher foram comissionados para, juntos, governarem a terra. A submissão imposta de forma unilateral às mulheres é fruto da queda do gênero humano. Os homens são exortados a amar suas esposas como Cristo amou a Igreja, dando sua vida por ela. Não há submissão maior do que esta! Em Cristo, podemos resgatar o projeto original da criação, pois somos restaurados na nossa unidade e parceria.

 

Que efeitos positivos essa valorização da ênfase feminina pode ter para a Igreja?

Como expresso em meu livro, o resgate do principio feminino deveria levar a uma transformação na liderança das igrejas. Não se trata das mulheres ocuparem o lugar dos homens, mas de introduzir uma liderança colegiada, composta por homens e mulheres: um corpo, com diferentes dons. A figura de um pastor único à frente da igreja não é o modelo do Novo Testamento. É uma herança do modelo sacerdotal judaico. A contribuição das mulheres na liderança da Igreja é legítima, já que o Espírito distribui os dons conforme lhe apraz e não conforme o sexo. Mas esta participação precisa levar a uma transformação do modelo de liderança – de um modelo hierárquico com um líder solitário à frente da igreja, para um modelo de corpo, com um colegiado de pastores e líderes, homens e mulheres, numa igreja onde todos são chamados a contribuir conforme os dons que receberam. Um modelo de rede, mais participativo e descentralizado.

 

De um ano para cá, desde a flexibilização das leis que regem o contrato conjugal, o número de divórcios deu um salto no país. Hoje, em muitos casos, pode-se anular um casamento com uma única ida ao cartório. O que levou a essa banalização?

O casamento é visto por muita gente como uma sociedade que pode ser rompida quando alguma cláusula não é cumprida. Todo casal tem conflitos, mas o vínculo é o que a gente faz dele. Quando não se sabe lidar com as diferenças, nem se desenvolvem qualidades como a tolerância na relação, esse vínculo vai se romper. No entanto, amar e ser amado é o anseio maior de todo ser humano – por isso, acho que a instituição do casamento vai se manter, mesmo que a taxa de divórcios seja grande.

 

Não há estatísticas específicas, mas a observação geral nas igrejas é que os divórcios entre crentes também têm sido mais frequentes. Por que isso acontece?

Para nós, cristãos, o matrimônio é uma aliança, um vínculo construído na Rocha, que é Jesus. A união matrimonial, para o crente, é um compromisso pautado na aliança de Cristo com a Igreja. O maior motivo para os divórcios é que as pessoas casam com expectativas irreais do tipo “ser feliz para sempre”. Os crentes tendem a fugir dos conflitos, a esconder as crises e mascarar os problemas, e assim vão acumulando as decepções até não aguentar mais. Muitos relutam em buscar ajuda e tentam manter uma fachada de felicidade conjugal até o fim, buscando soluções mágicas. Há pouca transparência e as pessoas tendem a se mostrar mais “perfeitas” do que são. E as igrejas não abordam muito as questões sexuais, a pornografia, o abuso físico, emocional e sexual. Elas deveriam é incentivar a criação de mais espaços de sigilo e respeito, onde as pessoas pudessem externar sua fragilidade, suas dores e conflitos.

 

Muita gente diz, genericamente, que a “falta de conversão” está na raiz de tantos conflitos. A senhora concorda?

A realidade mostrou que a “conversão” não representava, automaticamente, uma mudança de comportamento. Neste ponto, temos que rever nosso conceito de conversão, que significa hoje, basicamente, responder a um apelo e adotar uma declaração de fé. Mas a conversão é apenas o primeiro passo de uma longa caminhada de santificação que dura a vida inteira. É estarrecedor perceber que a taxa de divórcio entre evangélicos é parecida com a taxa nacional. A incidência de abuso físico é a mesma também! A gente fere com o que está ferido em nós.

 

No meio evangélico, ainda se confundem bastante os papéis do pastor, do conselheiro cristão e do profissional de psicologia. Há até pastores e dirigentes evangélicos que fazem cursos simples, na área de psicologia, para "habilitar-se" mais ao trabalho de aconselhamento. O que os psicólogos cristãos pensam a respeito?

De fato, a vida espiritual e emocional estão interligadas e ainda há uma tendência a extrapolar a área de atuação de cada um. Não posso falar em nome dos psicólogos, apenas no meu. Acho bom que os pastores se informem sobre psicologia, para aprimorarem sua prática pastoral. A primeira coisa que irão perceber é que aconselhar não significa dar conselhos, mas apenas ajudar a pessoa a enxergar melhor as opções à sua frente. Participo da Comunidade de Jesus em São Paulo, onde não há pastor remunerado pela igreja e um dos presbíteros é psicanalista. Lá, ele exerce o seu dom na área de ensino e direção espiritual, numa relação de reciprocidade e edificação mútua dentro do Corpo de Cristo.

 

A questão da homossexualidade envolve as mais variadas polêmicas. Uma delas, e talvez das principais, é quanto à sua origem – é comum, no meio evangélico, a tese de que ela pode ser revertida para a heterossexualidade, considerada o padrão de Deus para o ser humano. No entanto, grupos de defesa dos direitos dos homossexuais e uma grande parcela dos seus colegas psicólogos dizem que isso é impossível. Para eles, a mudança é apenas comportamento sugestionado ou uma tentativa que, ao fracassar, acarreta sofrimento psicológico. O que a senhora diz?

Assim, a própria natureza denuncia a inviabilidade desse tipo de relação. Um casal homossexual não pode se reproduzir. A Bíblia também é clara a respeito do assunto. Tenho acompanhado pessoas que sofriam por terem sido iniciadas sexualmente e de forma abusiva por pessoas do mesmo sexo, o que as colocava em conflito com sua identidade física e com seus valores espirituais. Ao tratar do abuso, essas pessoas puderam se reconciliar consigo mesmas e iniciar uma relação heterossexual prazerosa e duradoura. A sexualidade humana é uma construção biológica e psicosocial. Eu conheço pessoas que se consideravam homossexuais e se tornaram heterossexuais. Mas eu nunca fui procurada por um homossexual que quisesse permanecer nesta condição, e não estaria qualificada para esta demanda.

 

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Tue, 10 Jan 2012 17:38:56 +0000 Tue, 10 Jan 2012 17:38:56 +0000 http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=836